Os refugiados de Belém

Para o repórter do programa policial de televisão, o que estava acontecendo era um “toque de recolher”. Dez famílias de moradores do Parque Guajará, bairro do distrito de Icoaraci, em Belém, estavam se mudando às pressas, abandonando suas casas. Na verdade, era uma evacuação. O toque de recolher é menos dramático: as pessoas ameaçadas ficam homiziadas em duas casas, com horário para não circular pelas ruas, geralmente no meio da noite, como é comum no Rio de Janeiro e já é frequente por aqui. Mas o que acontecia na (por ironia) rua da Paz, do conjunto Eduardo Angelim, era fuga em massa.

As famílias deixaram os seus lares ontem de manhã. Na noite de domingo, 20 homens invadiram a rua e atiraram a esmo, depois de mataram, também aleatoriamente, duas pessoas, uma delas com 87 anos, simplesmente por estarem pelo caminho. Outra pessoa ficou ferida. O ataque seria advertência de traficantes da área para a comunidade (por outra ironia, irmã Dulce), Os criminosos souberam que um dos moradores teria dado informações à polícia, Assustados e amedrontados, esses moradores não podiam saber se sofreriam outra agressão. Fugiram, com a cobertura de 12 homens da Polícia Militar em três viaturas, que nada mais puderam fazer, muito menos garantir a segurança na rua. De certa forma, pode-se dizer que são os primeiros refugiados da violência epidêmica da capital paraense.

A gravidade desse fato não foi percebida pelos dois jornais diários de Belém nas suas edições de hoje. O Diário do Pará deu uma foto da fuga na capa do seu caderno de polícia (que exibiu mais cinco cadáveres) e três fotos em duas páginas internas. A notícia, porém, é telegráfica e burocrática. A matéria de O Liberal é minúscula e sem imagens. Um leitor mais exigente não terá informações essenciais para avaliar o significado desse fato.

Nenhuma descrição do local, das famílias, das razões para ser uma das áreas mais perigosas da cidade ou o destino das famílias que fugiram, acontecimento inédito na sangrenta e violenta crônica policial.Nada que desfaça a condição de guetos das periferias pobres de Belém, entregues à própria sorte (ou azar). Talvez, por isso, esse novo capítulo se dissolva hoje mesmo e passe a ser encarado como coisa normal, devidamente digerida no imenso organismo social (e institucional) das anormalidades sufocadas – até que algo ainda mais brutal aconteça, apanhando desprevenidos a todos, especialmente as vítimas de sempre: os cidadãos desamparados.


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