Tudo muda

Era 1968. Eu tinha dois anos em A Província do Pará e 18 de idade. Carlos Gomes Lopes, o secretário do jornal, foi para os Estados Unidos em viagem patrocinada pelo Departamento de Estado americano, junto com Eládio Malato, de O Liberal, e (acho, sem muita certeza) Fernando Moeira de Castro, da Folha do Norte. Logo em seguida a assumir o cargo, propus ao diretor de redação, Cláudio Augusto de Sá Leal, mudarmos a primeira página do jornal.

Nessa época, a maioria dos jornais só publicava na capa matérias nacionais e internacionais. As notícias locais só tinham vez para acontecimentos especiais. Os textos eram fragmentados, conforme os telegramas que chegavam (alguns ainda tendo que ser traduzidos, por virem em código) de dentro e de fora do país. Mas aos jornais de maior prestígio já ocupavam a capa das suas edições com chamadas para as matérias de dentro, em textos resumidos para conter o principal.

Depois de recusar a proposta, como de hábito, Leal me chamou e admitiu: vamos tentar. Tentamos. Eu trouxe as chamadas das principais notícias e desenhamos a página, Leal no comando, usando espaços brancos, até então interditados. Varamos a noite. Tive que descer à oficina, até a madrugada, para acompanhar o fechamento, que o chefe da gráfica, Pedro Chagas, relutou em aceitar. Só saí quando o jornal começou a rodar. Para não perder a moral, acompanhei os gráficos para uma saideira no Ver-o-Peso.

No dia seguinte, eu tinha que ir ao aeroporto para cobrir a chegada de alguma autoridade. No caminho, fui lambendo a cria. Estava emocionado. Ao chegar, iria enfrentar o anticlímax. O fotógrafo Pedro Pinto nem me deixou cumprimentá-lo. “Vocês transformaram um matutino em vespertino”, protestou ele. Era verdade, em parte. Só os vespertinos, que ainda existiam nessa época, tinham uma capa movimentada por fotos, títulos e matérias curtas. A Província continuaria a ser matutino. Mas com novo desenho gráfico, que se manteria desde então – e passaria a ser a feição de todos os matutinos. Os vespertinos acabaram, ao menos no Brasil.

Essa história me veio à mente ao ver o novo design de O Liberal, inaugurado no domingo. Parece a transformação de meio século atrás (caramba: meio século!). Só que não mais resultando na passagem da impressão a quente, pelo método tipográfico, para a impressão a frio, do off-set, transformação que aconteceu por aqui no início dos anos 1970, com o pioneirismo de O Liberal, em 1973, um ano depois da Folha de S. Paulo, se a memória não me trai. A técnica gráfica é a mesma, só que o jornal se parece cada vez mais a uma revista: fotos abertas, espaços brancos, títulos menores, corpos de letras mais graúdos, leveza e grafismo. Uma publicação sem o calor e a vibração de um diário, no formato antigo.

O jornal ficou mais bonito, a impressão é de primeira, a diagramação é esbelta. O Liberal está melhor na aparência. Traz para Belém novidades que já vêm sendo adotadas pelo mundo afora. O leitor deve aprovar. Em mim, fica uma sensação de vazio primorosamente edulcorado: há menos textos, mais curtos e superficiais, menos atualidade, menos calor e vibração na cobertura dos fatos. É uma impressão irreprimível, mas pessoal e intransferível. Não quero repetir a atitude do grande Pedro Pinto. Mas que fica um gosto de déja-vu, ah, ficou.

Como se diria meio século atrás, plus ça change, plus c’est la même chose.


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