Que país é este?

(Publicado neste blog em 23 de abril de 2015)

Leio balanços há muitos anos. Não me lembro de ter encontrado algum registrando baixa por corrupção, como o que a Petrobrás apresentou ontem, no Rio de Janeiro. A empresa admite que a corrupção, apurada pela Operação Lava-Jato, a obrigou a reduzir em 6,2 bilhões de reais o seu ativo. Outra façanha: é a maior corrupção já documentada na história mundial.

O documento que a materializa é triste e vergonhoso, mas é precipitada e falsa a reação da presidente Dilma Rousseff, que acompanhou a prestação de contas no seu gabinete, no Palácio do Planalto, em Brasília (não seria mais adequado que ela presidisse a sessão, pelo que é e pelo que foi, como ministra das Minas e Energia e presidente do conselho de administração da estatal, inclusive no período em que o roubo foi praticado?). A página não foi virada, apesar da monstruosidade dos garranchos nela inscritos.

O levantamento do prejuízo causado pela corrupção, que começou em 2004, foi apenas até 2012. Falta contabilizar os dois últimos exercícios. Além disso, o cálculo sobre os nove anos abrangidos foi conservador. A explicação é de que assim pode incorporar acréscimos – claro, reduzindo, antes, o impacto que uma verificação rigorosa agravaria ainda mais.

Certamente a empresa de auditagem, a Price, não conseguiu concluir sua verificação, apesar do atraso de cinco meses na divulgação do balanço, sequer aplicar uma metodologia rigorosa, compatível com a situação das contas da Petrobrás. Constatado o valor da supervalorização de obras e serviços, a conta foi fechada pela aplicação da taxa de corrupção declarada pelos próprios corruptos: 3% sobre o valor dos contratos, inchados para abrigar todos os desvios acertados.

Mesmo ainda superficial, a leitura do balanço não deixa dúvida: as demonstrações financeiras foram arrematadas no tapa e no grito para evitar o pior. Sem um balanço auditado e aceito até o dia 30, 110 bilhões de dólares da dívida recorde da Petrobrás (de 351 bilhões de reais, 80% dela em moeda estrangeira) teriam sua cobrança antecipada automaticamente. A estatal brasileira quebraria.

A dívida, a maior do setor petrolífero em todo mundo, vai cobrar caro da Petrobrás até pelo menos 2020, o horizonte de vencimentos mais crítico de parcelas medidas em dezenas de bilhões de dólares. A Petrobrás não terá caixa próprio capaz de honrar esses compromissos. Terá que se endividar ainda mais. Só neste ano já foram mais R$ 30 bilhões, para poder continuar a trabalhar. Pagando mais caro para ter um dinheiro agora arredio.

Os personagens principais dessa história deram sua contribuição para atenuar o enredo. Apresentado de forma realista, seria um choque na vontade nacional, um elemento poderoso a mais de descrédito e desestímulo para curvar o país diante de uma crise cujo componente principal não é externo, mas interno – interno ao país e àquela que era, e já não é mais, sua maior empresa.

O presidente da Petrobrás, Aldemir Bendine, admitiu não ter “clarividência muito clara” se a corrupção que vitimou a empresa “foi de fora para dentro ou de dentro para fora”. A confusão vernacular do cidadão talvez o tenha impedido de ver essa dialética malsã de uma corrupção geral nas duas direções. O que ainda não se sabe é qual delas foi a mais intensa. E onde estão os tubarões escondidos por detrás da raia graúda, mas, proporcionalmente, inexpressiva diante do volume da – com perdão do leitor – bandalheira devassa.

Independentemente desta última certeza, não há dúvida: um país que foi submetido ao terrível espetáculo de ontem, na apresentação do espantoso e ainda provisório balanço da Petrobrás, não voltará a ser o mesmo depois. Se voltar, não merece mais respeito, não vale mais a pena.


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