Sangue, política e comércio

O Diário do Pará  talvez seja o único jornal do mundo que publica praticamente todos os dias fotografias de cadáveres. Pode ser um só cadáver, mas às vezes são quatro, cinco, 10 ou até mais. As fotos podem ser closes, com detalhes do corpo, exceto o seu rosto, ocultado por tarja eletrônica.

Não foram poucas as ocasiões em que nem a tarja foi usada: o cadáver foi exibido ao leitor tal como encontrado, geralmente com mais de um tiro, em regra de quatro a cinco, com casos de mais de uma dezena de perfurações, inclusive na cabeça.

São mortes violentas por acerto de contas entre traficantes de drogas e viciados, disputas entre quadrilhas ou pela ação de milícias armadas, quase sempre organizações paramilitares, que vingam policiais mortos. A cena mais comum é na região metropolitana de Belém, com seus dois milhões de habitantes, sobretudo em áreas de invasão de terras transformadas em bairros precários. Os cadáveres são de criminosos, policiais e pessoas anônimas, pobres ou quase pobres, pretos ou quase pretos, conforme a descrição de Caetano Veloso para o Brasil, o quase Haiti, que cabe perfeitamente no Estado mais importante e dramático da fronteira amazônica.

Com a exploração sensacionalista dos crimes, o Diário do Pará superou o amplo domínio de muitos anos do seu grande concorrente, O Liberal  (grupo de comunicação da família Maiorana, afiliado à Rede Globo), passando a ser o mais vendido na capital paraense. O fato de ser de uma família com três dos mais importantes e poderosos políticos do Estado (o senador Jader Barbalho, sua ex-esposa, a deputada federal Elcione, e o filho do casal, Helder, eleito governador do Pará, todos do MDB), não inibe a exploração de cadáveres de gente humilde.

Muito pelo contrário. Há 20 anos os tucanos ocupam o governo, hegemonia interrompida apenas durante quatro anos, pela eleição da petista Ana Júlia Carepa, com o apoio dos Barbalho. A segurança pública é uma das mais clamorosas deficiências do PSDB, que não conseguiu frear o avanço da criminalidade.

Belém é das cidades mais violentas do mundo e o Pará está no topo do ranking nacional. A intensa cobertura dos assassinatos e a exploração sensacionalista dos “presuntos”, como são tratados os cadáveres na linguagem do jornalismo policial, servem para aumentar a vendagem do jornal, ao mesmo tempo que é arma de combate político aos tucanos.

Diário do Pará circula diariamente com um caderno de polícia de oito páginas, em formato tabloide, que bem poderia passar por boletim impresso do Instituto Médico Legal. O tom do tratamento é sempre sensacionalista, impreciso, descontínuo, sem qualquer contextualização. Prevalece o interesse comercial, confirmado por pesquisas de mercado: o leitor do jornal é fascinado pela crônica criminal.

Assunto é o que não falta. Ao depor nesta semana na Assembleia Legislativa do Estado, alvoroçada por mais uma chacina, com 10 mortos, na semana passada, o secretário de segurança pública, Luiz Fernandes Rocha, apresentou dados espantosos. O delegado procurou prevenir impactos ressaltando que os números poderiam ser relativos a qualquer outra unidade da federação e do próprio país, mas a ressalva tem alcance limitado.

Pelos dados oficiais, em média, a cada dia, 10 pessoas são mortas no Pará. Entre 1º de janeiro e o último dia 6, foram 3.168 homicídios; 50% desses assassinatos violentos se concentraram em 10 dos 144 municípios paraenses. O índice é dos mais altos do país: 37 homicídios para 100 mil pessoas,

É uma estatística chocante. Ela é mais dramática ainda no caso dos extermínios, cada vez mais frequentes, como o do dia 29 de outubro. Apenas quatro dias depois que o policial militar João Batista Menezes foi morto, quatro homens, em duas motocicletas, mataram aleatoriamente, no mesmo bairro, 8 jovens, entre 18 e 22 anos, com vários tiros, sem qualquer elemento de conexão entre os assassinatos, exceto pelo crime antecedente. Três outras pessoas ficaram feridas. Todas as vítimas foram alvejadas em local próximo à residência do policial. Desta vez, a matança foi de dia, os alvos sendo escolhidos aleatoriamente. Ninguém foi identificado até agora.

Todos os parâmetros vigentes até recentemente perderam a sua validade diante da avalanche de homicídios por motivos fúteis ou torpes, cometidos com brutalidade, nesses casos sem guardar um grau de proporção com o objetivo do criminoso, em horários e locais que normalmente inibiriam esses atos. Logo, a colheita é farta para uma publicação como o Diário do Pará.

Numa edição, o jornal registrou 60 mortes em três dias de um fim de semana (invariavelmente sangrento), entre 19 a 21 de outubro, 60 homicídios grande parte deles praticados com arma de fogo. Nos três dias seguintes, de 22 a 24 de outubro, outros 46 homicídios, segundo os dados oficiais, que nem sempre correspondem à soma real de assassinatos.

Assim, não surpreende que sangue e política se juntem n um procedimento jornalístico para o qual é determinante o uso desses ingredientes como elemento de negócio num Pará cada vez mais violento e incontrolável.

(Publicado no site Amazônia Real)


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