Colarinhos manchados

(Publicado no blog em 31 de março de 2015)

Quem, no Brasil, ganhando 180 mil reais por mês, precisa roubar? Os diretores da Petrobrás, Paulo Roberto Costa e Nestor Cerveró, que recebiam esse salário, roubaram e ajudaram outros a roubar. Os implicados no escândalo estão presos. Os que o substituíram e ocupam cargos na diretoria da estatal poderão passar a receber mais de R$ 200 mil por mês, graças a aumento previsto para ser concedido no dia 29, na próxima assembleia de acionistas. O sócio controlador, que impõe todas as suas decisões, é o governo federal.

O reajuste, de 13%, é o dobro da inflação em 2014. Com isso, a direção da estatal, que tem oito cargos, ficará R$ 20 milhões mais cara se a proposta for aprovada. O custeio inclui ainda o Conselho de Administração, que se reúne ocasionalmente. Com o aumento, cada conselheiro terá direito a R$170 mil mensais.

Apesar de todo impacto da Operação Lava-Jato, parece que para a cúpula da Petrobrás esse é um capítulo vencido. A história prosseguiria, como se a suspeição não alcançasse – ao menos em tese – os integrantes da cúpula da empresa, se não surgisse um fato novo e grave: a propositura, em Nova York, de uma ação coletiva em que um fundo de pensão britânico, o ISS, é o principal interessado.

A ação acusa os dirigentes da estatal brasileira de causarem prejuízos aos seus acionistas e investidores com o pagamento de propinas e superfaturamento de custos. Se o juiz da comarca aceitar o pedido, mandará citar os réus. A partir daí, os dirigentes da Petrobrás apontados se tornarão réus e ficarão suscetíveis a processo e sentença final – o que, na justiça americana, sabe-se a que penas levará. Do salário milionário à cadeia?

Agora, nesta amplitude, o escândalo do Lava-Jato deixará de se circunscrever à justiça brasileira. Uma façanha brasileira, com certeza.


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