Democracia ainda frágil

(Publicado no blog em 16 de março de 2018)

Um cartaz exibido na manifestação de ontem (provavelmente no Rio de Janeiro) pregava: “Quem não luta pelo futuro que quer, tem que aceitar o que vier. Um país mudo não muda!!! Intervenção militar já! É tempo do basta!”.

Uma faixa levantada em Brasília garantia: “O Brasil não será uma nova Venezuela!”.

A democracia permite a qualquer cidadão expressar o seu protesto pedindo um golpe militar para extinguir o regime que lhe permite exercer essa liberdade, proscrita nas ditaduras, como as que o Brasil já viveu por tantas vezes.

A democracia que temos é um bem valioso. Talvez só quem já experimentou uma ditadura no cotidiano da sua vida possa lhe atribuir todo valor que ela tem. Mas também não pode achar que a democracia brasileira, com aniversário de 30 anos neste mês, esteja consolidada.

Nosso vizinho, a Venezuela, não vive numa democracia, apesar das aparências. E vive cada vez menos na medida da ousadia do seu atual presidente, sucessor de Hugo Chávez. Há razões no passado para que a viciada democracia venezuelana tenha sido desprezada e reprimida pelo reformismo impositivo dos jovens turcos do país?

Há, sim. Mas nenhuma dessas razões merece servir de pretexto para a abúlica posição do Brasil em relação aos ataques antidemocráticos desse nasserismo bolivariano de péssima leitura do passado e má inadequação ao presente. Daí o temor fixado na faixa de que o silêncio conivente do Brasil acabe servindo de endosso à importação de um regime atrasado em relação ao nosso.

Há rumores de golpismo por todos os lados, reais, imaginários, fantasiosos ou exagerados. Mas o Brasil é um país grande, complexo, diversificado e problemático demais para caber no molde de exemplos menores, de dentro ou de fora do seu território soberano. O melhor da dinâmica das ruas é o exercício da democracia. Imperfeita e falha, ela precisa avançar e não recuar – ou acabar. Do contrário, sem esperança e utopia, de que vale fazer história?


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