O que houve ontem?

(Publicado no blog em 16 de março de 2015)

Por dever de ofício, o jornalista precisa ser bem informado. Com base nessa presunção, várias pessoas me consultaram, ao longo da semana passada, sobre um boato que as estava inquietando: o governo federal iria congelar ou confiscar as poupanças.

No início do seu segundo mandato consecutivo, a presidente Dilma Rousseff, do PT, iria imitar o ato arbitrário, o mais violento já perpetrado contra a economia dos cidadãos brasileiros, de Fernando Collor de Mello, no dia mesmo da sua posse, um quarto de século atrás.

Em nenhum país com uma sociedade bem informada e instituições sólidas alguém, mesmo a maior autoridade pública, poderia sequer conceber uma iniciativa dessas. Exceto em ditaduras.

Surpreso, chocado e despejado numa situação calamitosa, ainda assim muitos brasileiros se dispuseram a encarar essa tormenta. Acreditavam nas promessas do “caçador de marajás”, o novo Jânio Quadros, que subia ao poder nas asas milagrosas de um partido minúsculo – e na contramão das maiores lideranças políticas nacionais – para limpar e moralizar o Brasil.

O golpe foi profundo. Quando o ex-governador de Alagoas se revelou o chefe de uma organização criminosa (expressão que se tornou frequente desde então), que tomou de assalto a presidência da república, sua queda foi vertiginosa e melancólica. As provas concretas de corrupção que o atingiram eram poucas e de pouca expressão, mas ele já cometera o crime maior, de abusar da confiança do povo.

As acusações de corrupção que hoje circulam têm números incomparavelmente maiores do que os da era Collor, muitas delas atribuídas aos integrantes do PT, o partido que também se aboletou no poder para reformar as instituições e a sociedade, inaugurando uma nova era no país. Um partido dos escolhidos, dos melhores, dos diferentes.

Funcionário de um banco estatal me ligou para dizer que um cliente, já idoso, acabara de sacar sete mil reais da sua poupança, convencido de que a ameaça ia se consumar. O bancário não conseguiu convencê-lo do contrário e me ligou para checar as informações. O que eu achava?

Eu achava que o cidadão ia se expor a um perigo imediato e bem mais tangível: ser assaltado ao sair da agência com o dinheiro e ao voltar para depositá-lo de novo, quando o boato se desmoralizasse, por ser impossível a sua materialização. Do contrário, se sujeitava a outro perigo: da invasão da sua residência por ladrões informados do hábito não recomendável de guardar dinheiro em casa.

Fatos como esse formaram o panelão (para usar outra expressão dos hábitos e costumes mais recentes) no qual foi cozida e amadurecida a manifestação de ontem. Qualquer definição categórica sobre o fenômeno pode ser precipitada e se sujeitar a erro lamentável. O que aconteceu constitui novidade e se insere num contexto que desafia as análises convencionais.

Algumas constatações acima de qualquer questionamento podem ajudar os brasileiros a entender o que aconteceu. As manifestações se espalharam por todo país, mas o ponto principal foi o Estado de São Paulo. Em 58 dos 645 municípios paulistas foram registrados atos de protesto, que arregimentaram 1,4 milhão de pessoas, quase 60% do total em todo Brasil. Só na capital foram um milhão de cidadãos, quase 10% dos moradores da maior cidade do país e a sétima do mundo.

É preciso ir ao Guiness para saber se já houve ato político dessas proporções, em concentração humana equivalente, em qualquer parte do mundo. Proporcionalmente, porém, a iniciativa mais exitosa foi a de Vitória, a capital do Espírito Santo, onde quase um terço da população foi às ruas. Vitória chegou a ser uma cidade marcadamente petista.

Cruzamentos de dados podem resultar numa conclusão honesta: mais do que em junho de 2013, neste 15 de março de 2015 a sociedade brasileira passou à frente das suas instituições, de todas elas. Foi uma concentração impressionante de gente, sem incidentes, com objetivos essencialmente políticos, mas em defesa de teses e causas. Bandeiras que precisarão ser enroladas nesta segunda-feira porque o Brasil voltará a ser o que era antes?

Eis a grande e perturbadora pergunta a desafiar respostas. E atos concretos.


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