O grande caráter

(Publicado no blog em 13 de março de 2015)

O empresário Ricardo Pessoa, que está preso na Polícia Federal, em Curitiba, como um dos envolvidos no esquema de corrupção na Petrobrás, “tem muito caráter”, garantiu um interlocutor do empreiteiro à colunista Monica Bergamo, da Folha de S. Paulo, que registrou o estranho juízo na sua coluna de hoje.

Por causa do seu forte caráter, o empreiteiro, não estaria “disposto a falar o que as pessoas querem ouvir”, assim dificultando a negociação da sua delação premiada com os responsáveis pela Operação Lava-Jato. “A delação de Pessoa é uma das mais aguardadas, dada a expectativa criada em parte da imprensa de que, irritado, ele estaria decidido a arrastar peixes mais do que graúdos da política para o centro do escândalo”, informou a colunista.

Resistindo a entregar esses personagens, o dono da empreiteira UTC “ainda estuda a possibilidade de ser inocentado ou ter punições amenizadas sem recorrer à delação”, disse “um segundo interlocutor” à jornalista.

Bergamo pode partilhar o juízo das suas fontes de que Ricardo Pessoa “tem muito caráter”, mas é difícil associar esse predicado ao que fez o empresário. Ele é apontado como o chefe do cartel (batizado de clube pelos seus integrantes) de empreiteiros e fornecedores da Petrobrás, que institucionalizaram o pagamento de propina e manipulação de valores na estatal do petróleo, fraudando concorrências, majorando preços e desviando propina para executivos e políticos, devidamente segmentados por legendas na base de apoio ao governo.

Até 2003/2004, no início do governo Lula, havia corrupção na Petrobrás, como, de resto, em grande parte dos organismos criadores de valor material no governo e na iniciativa privada, numa contaminação que se transformou numa pandemia de roubos. Só quando as compras e encomendas adquiriram uma dimensão do porte da demanda do pré-sal é que corruptos e corruptores perceberam que, se organizando e institucionalizando os mecanismos de assalto, todos ganhariam mais. Foi o que fizeram.

Pessoa comandava essa engrenagem, que era clandestina, mas operava como se fosse normal. Quase tão às claras que seus membros depõem diante do público como se seus atos infames fossem absolutamente comuns, rotineiros. Da propina pingada, individual, caso a caso, a quadrilha evoluiu para comissões que, embora com percentuais de 1% a 3%, eram cobradas com base em valores absolutos monumentais, na escala de bilhões de reais.

O gerente Pedro Barusco, no seu depoimento à CPI da Petrobrás, disse que as coisas mudaram quando a contratação deixou de ser para uma, duas ou três sondas, chegando a 18 de uma só vez. Foi aí que apareceu a Sete Brasil, que iria nacionalizar a construção desses equipamentos bilionários, com os recursos aplicados pelo BNDES. O dinheiro começou a correr a rodo.

A UTC se agigantou nessa fase e com ela o seu dono, que saiu do anonimato para o olimpo do poder. A interrupção da carreira, que o despejou numa cela da Polícia Federal, abalou a sua vida. Ele se tornou solitário, angustiado, atormentado e varado por conflitos morais e éticos, sentimentos próprios de uma pessoa de caráter.

Lá do seu tugúrio, ele conseguiu ser ouvido pela revista Veja, que lhe abriu as portas de uma matéria de capa, três semanas atrás. O texto não deixava dúvida: Ricardo Pessoa tinha que ser contemplado pela delação premiada porque tinha muito a contar, conforme sugeriam os manuscritos que escreveu e que foram vazados (circunstancialmente, é claro) para o semanário paulista.

Parece que a mensagem não foi perfeitamente captada pelos destinatários na frente de apuração montada pela justiça, o Ministério Público e a Polícia Federal. Agora, através da influente colunista da Folha, o ansioso empreiteiro manda outro SOS – desta vez, para os peixes graúdos, que podem agir nos bastidores para tirá-lo da rede em que foi aprisionado. Assim, não precisaria da delação (quem sabe, até porque ela não estaria mais ao seu alcance) e todos os tubarões (em cujo cardume os bagres do rio Madeira não se criam) sairiam ilesos da tormenta.

Diante desse enredo, assusta o conceito que os personagens têm de caráter. Susto, aliás, é o que não falta para quem acompanha essa história de corrupção, de alcance mundial. Depois de quatro horas a assistir o depoimento de Barusco na CPI da Câmara Federal, fica-se sob o impacto do que ele disse.

Como ao saber que no momento em que o dinheiro de que ele se apossou para favorecer empresas ao alcance da sua influência na Petrobrás tiver retornado ao Brasil, será o maior caso de expatriação de recursos saqueados ao tesouro de toda a história do país, em todos os tempos. Serão 182 milhões de reais, dos quais 40 milhões ainda estão pendentes na Suíça por exigirem a conversão dos depósitos em outras moedas estrangeiras. O que obrigará os investigadores da corrupção a mais uma viagem à Europa.

Façanha histórica e de impacto para quem, na imensa estrutura humana da Petrobrás, era apenas gerente, tão consciente dos depósitos feitos em bancos suíços e de outros países que, dos 97 milhões de dólares de saldo (sendo US$ 27 milhões de rendimentos financeiros), sacou “apenas” um milhão para despesas eventuais, de pequeno valor, algo como uns 10 reais do João da Silva para enfrentar um longo dia de azáfama.

Que caráter!


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