Pobre Petrobrás

(Publicado no blog em 28 de janeiro de 2015)

A presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, disse hoje que a Petrobrás “continua trabalhando para produzir demonstrações financeiras auditadas”. A declaração foi dada logo depois que a companhia divulgou o balanço do 3º trimestre do ano passado. Como o documento não recebeu auditagem externa, os analistas o classificaram de “peça de ficção”, não lhe dando maior crédito.

Ao contrário da norma contábil, a Petrobrás não fez as baixas contábeis relacionadas às denúncias de corrupção da Operação Lava-Jato da Polícia Federal. Sabe-se que eles podem ser estimados por vários bilhões de reais, mas sem essa baixa ninguém conseguirá saber qual o valor justo dos ativos da estatal.

A divulgação do balanço seria apenas para atender as obrigações com credores, ignorando as perdas impostas pelo sobrepreço de contratos que beneficiou ex-funcionários, executivos de fornecedoras e políticos, segundo investigação do Ministério Público Federal.

Pode parecer formalidade, mas as ações da Petrobras na bolsa de valores de São Paulo, a principal do país, acumulam perda superior a 70% em relação à máxima histórica, alcançada em 2008. Hoje, a perda foi de 11%. A Petrobrás dispõe de patrimônio para reverter no futuro a situação, mas como estarão até lá os seus acionistas, sobretudo os pequenos e médios aplicadores, que somam milhares de pessoas?

A publicação do balanço completo deveria ter saído em novembro, mas foi retardada pela revelação dos escândalos com o desvio de dinheiro da empresa para o pagamento de propinas e comissões ilícitas – e a não concordância da Price Waterhouse, a auditora externa, de ratificar os números.

A estatal do petróleo, que perdeu a tradicional posição de a maior empresa do país em virtude da brutal desvalorização das suas ações, acabou por abrir mão desse referendo técnico. Alegou hoje “ser impraticável a exata quantificação destes valores indevidamente reconhecidos, dado que os pagamentos foram efetuados por fornecedores externos e não podem ser rastreados nos registros contábeis da companhia”.

Para o tamanho à elefantíase da Petrobrás, é uma desculpa de rato. Não convenceu ninguém capaz de entender minimamente o conteúdo de um balanço empresarial. Com base nos números que acabaram sendo divulgados hoje, a corretora Planner, calculou a baixa contábil em 60 bilhões de reais, o equivalente a 17,5% do patrimônio líquido da Petrobras no fim de setembro de 2014, ou 47,7% do valor de mercado da empresa, considerando as cotações de ontem. A tensão permanecerá até que a legendária empresa petrolífera brasileira possa consumar o que até recentemente parecia tão fácil e rotineiro: dizer qual, de fato, será o nível do ajuste nos ativos imobilizados.

Ou seja: até poder dizer a verdade


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