A presidente desnorteada

(Publicado no blog em 24 de dezembro de 2014)

A expectativa dominante é de que 2015 venha a ser um ano mais difícil do que 2014, sobretudo pelo agravamento de problemas econômicos. Os enormes desafios exigiriam que a equipe do governo impressionasse ou convencesse por suas evidentes qualidades técnicas. Independentemente de sua cor ideológica, matiz política ou vinculação profissional, o ministério devia ser desmarcado por sua competência específica em cada área de atuação.

Os ministros da área econômica estrito senso parece que foram recrutados por esses critérios. Sua missão seria a de fazer o que deixou de ser feito no primeiro mandato de Dilma Roussef e tentar corrigir o malfeito ou resultante da omissão. Já a segunda fornada de ministros, que saiu do forno do Palácio do Planalto ontem, revela uma desbragada inspiração política.

Antes de tratar das questões técnicas, relacionadas às maquiagens escriturais que escamotearam sérios e graves impasses econômico-financeiros, a presidente trata de preservar o seu próprio mandato. Ele já está corroído, minado e ameaçado de destruição mesmo antes da posse. Nunca a transição de um primeiro para um segundo mandato (essa anomalia republicana) foi tão crítica.

Dilma Rousseff foi vendida à opinião pública pelo seu antecessor como “gerentona”. Isso, de fato, ela é: mandona, autoritária, concentradora de poder. Mas a distância entre ir da forma ao conteúdo da gestão se revelou enorme, um vácuo que ela não conseguiu vencer nestes seus primeiros quatro anos como a primeira presidente da república da história do Brasil.

Empacada na administração do país, ela deixou de lado seu grupo mais íntimo e afinado com seu pensamento para recorrer ao “outro lado”, dos até então inimigos. É o reconhecimento do fracasso da sua gestão. Não está sendo mais bem sucedida pelo lado político da equipe, numericamente muito mais ampla e heterodoxa do que o núcleo econômico.

A marca identificadora dos 13 novos ministros é a de serem políticos profissionais, terem perdido a eleição deste ano ou estarem abandonando os cargos que ocupavam, e não se terem tornado notáveis pela atuação nas áreas específicas que vão comandar. Além de registrarem anotações comprometedoras em seus currículos, três deles envolvidos em processos judiciais.

Se essas nódoas não os impediram de serem candidatos, também não pode impedi-los de se tornarem ministros. O brocardo jurídico assegura que só se consolida a punição para todos os efeitos legais quando a sentença condenatória transita em julgado. Não é o caso dos três. Sua escolha, como as demais, não seguiu critérios objetivos discerníveis. Tudo resulta de conveniências e oportunidades políticas no empenho da presidente de se fortalecer junto ao Congresso Nacional para os combates que deverá travar no parlamento na hipótese de desdobramentos e aprofundamentos do “petrolão”.

Os ministros até agora anunciados atestam a falta de comando, de direção, de coerência e de qualquer coisa que possa ser interpretado como programa de governo pela presidente. Ela disse aos jornalistas que iria submeter cada nome selecionado para o ministério ao crivo do Ministério Público Federal.

O MPF imprimiria o sinete da liberação consultando sua listagem de pessoas denunciadas, a denunciar ou cogitadas para acusação a partir da Operação Lava Jato.

Afora a renúncia de poder e enfraquecimento da presidente, essa atitude é de uma desinformação espantosa. O procurador Rodrigo Janot jamais poderia divulgar nomes de réus de processo que tramita em segredo de justiça.

Mesmo que pudesse, a iniciativa da chefe do poder executivo viola a separação de poderes com o MPF, além de significar o reconhecimento da incapacidade dos seus serviços de informação de assessorá-la a respeito. Um episódio desastroso, que não serve de bom augúrio para os cidadãos que esperam – e temem – tanto 2015.


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