Ah, sim: os fatos

(Publicado no blog em 11 de novembro de 2014)

A mídia profissional foi a origem de 61% de todos os textos e imagens compartilhados no Twitter e no Facebook nos últimos 10 dias finais do segundo turno da eleição deste ano para presidente da república. Já nos dias seguintes à votação esse percentual subiu 70%, segundo pesquisa realizada pela Folha de S. Paulo.

Os frequentadores das redes sociais acessaram nesse período mais de 617 mil links do jornalismo profissional incluindo jornais, portais, emissoras de rádio e televisão, sites de notícias locais ou a imprensa internacional. No total, foram 27 milhões de postagens no Facebook e pouco mais de um milhão de twittes, retwittes e favoritos com links no Twitter.

Tais números contrastam com a porcentagem dos blogs que veicularam material próprio, apurado pelos responsáveis por esses blogs por eles mesmos, de 4,2%, 15 vezes menos do que o suprimento através da imprensa profissional.

Esse quadro devia levar os militantes do grupo de combate ao PIG (Partido da Imprensa Golpista) a se permitir uma reflexão isenta e mais profunda sobre o móvel da sua campanha. Ao invés de pugnar pela eliminação da grande imprensa, negando sua contribuição, não é melhor para a sociedade e para cada um dos seus membros exercer acompanhamento crítico como leitores e também como formadores de opinião?

Melhor entrar no debate, forçando a abertura de uma cunha pluralista numa estrutura corporativa que realmente costuma ser monoliticamente avessa à controvérsia, do que se empenhar pela destruição de um componente fundamental da sociedade democrática, mesmo que usado negativamente. Depois da eleição, a imprensa brasileira emite alguns sinais de crise e também de esperança para quem quer que o poder – o institucional e o informal – continue a ser fiscalizado e inibido nos seus contumazes excessos.

A pesquisa confirma que o tom predominantemente opiniático das redes sociais, com o uso e abuso de juízos de valor, vira pó sem a ossatura dos fatos, cuja apuração requer serviços profissionais de busca, coleta e checagem das informações. Sem essa relativização o cenário passa a ser favorável à definição da verdade pelo perigosíssimo critério apontado por muitos escritores, em especial os cronistas do absurdo: tem razão quem grita mais alto. Sabemos muito bem, pela leitura da história, no que essa cacofonia ideológica resulta. Em geral, no fascismo.


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