Humilhada e ofendida: a democracia

(Publicado no blog em 25 de outubro de 2014)

Paulo Roberto Costa foi, por oito anos, todos eles no governo Lula, o chefe de uma das mais estratégicas diretorias da mais importante empresa do Brasil, a Petrobrás, que é também das maiores do mundo. Quando sua atuação espúria e criminosa começou a vazar dos bastidores para o conhecimento público, ele perdeu o cargo, no qual foi posto pela coligação de partidos do governo, sob a chancela do PT. Mas saiu através de pedido de demissão, como se fora por iniciativa dele, e com elogios da sua chefe maior, a presidente Dilma Rousseff.

Quando os desvios de dinheiro da Petrobrás, tanto para enriquecimento ilícito do diretor quanto para formar caixinhas de recursos não contabilizados para os partidos políticos e seus dirigentes, se transformaram em enxurrada incontrolável, Paulo Roberto foi preso por ação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, que surpreenderam com sua iniciativa o poder executivo e todos mais.

O diretor se sentiu acuado, sem saída, e já na companhia de um doleiro, Alberto Youssef, com o qual operava o esquema de aplicação do dinheiro roubado da estatal do petróleo, que em 2014 completou 60 anos, criada pelo sangue de Getúlio Vargas. Negociou a delação premiada.

A aceitação da transação pelo judiciário gerou polêmicas, mas num ponto ficou claro: se o preso mentisse ou suas informações não fossem relevantes, ao invés de abrandada, a pena seria agravada. Confrontado com provas numerosas durante os interrogatórios sigilosos, blefar podia ser fatal para ele.

O que Paulo Roberto disse de alguma maneira chegou à imprensa. No meio das informações filtradas pode ter havido alguma impropriedade e elas permitiram aproveitamento tendencioso na mídia e nos demais segmentos do poder. Mas a essência dos fatos relatados está sendo confirmada. Não foi confirmada, no entanto, a antevisão do diretor corrupto: suas declarações iriam explodir a eleição deste ano, tal a sua gravidade.

Se a previsão deixou de se confirmar, não foi propriamente por serem disparos de festim os de Paulo Roberto, mas porque não houve sincronia entre seus canhoneios e a cronologia da principal disputa, a da presidência da república. Algumas bombas só irão estourar a partir da segunda-feira, quando o Brasil já terá um novo presidente da república – pelas pesquisas mais confiáveis, Dilma Rousseff, no seu segundo mandato consecutivo, o PT no quarto. Nunca nenhum partido terá sido mais poderoso no país.

A nojeira que saiu aos borbotões do interrogatório de Costa e do doleiro Youssef reaqueceu a expressão final de Vargas, quando, chocado pela visão dos intestinos do seu governo, sentiu-se imerso num mar de lama. Homem valente e decidido, decidiu recompor seu caminho e refazer o acerto com a história: se suicidou com um tiro no peito e deixou uma carta-testamento como legado aos seus seguidores e libelo terrível contra os seus inimigos.

Talvez a presidente Dilma Rousseff não tenha tanto tempo para comemorar a sua vitória. A quantidade de lama que restou pelo caminho desse triunfo é de assustar, prenúncio do acervo que ainda será retirado dos arquivos de computadores e da palavra dos presos. Como ela limpará essa vitória eleitoral, se ela for confirmada amanhã, e restaurará a legitimidade do seu novo governo e dos dias que ainda lhe restam do primeiro mandato?

A agressividade, que teve seu último capítulo no ataque à revista Veja, foi o combustível da sua campanha, o que esmagou a primeira adversária, Marina Silva, do PSB, e enfraqueceu o segundo, Aécio Neves, do PSDB. O ataque à sede da Editora Abril é uma face, a ilegal, de uma moeda dupla, que também recorre à via legal. O fato de a dosagem ser quase igual é um risco e uma sombra projetada sobre o presente e o futuro.

Ainda que possa ser tida como oportunista a antecipação de 24 horas da edição da revista com a acusação de Paulo Roberto Costa contra Lula e Dilma, apontados como cientes da corrupção na Petrobrás desde o início, é um recurso legítimo da editora, como tantos outros atos oportunistas durante a fétida campanha eleitoral deste ano.

Esse ato pode ser combatido pela inteligência, rapidez e eficácia da reação e do contra-ataque, como, aliás, fez o PT, logo amparado pela justiça. Mas um braço que age assim é contraposto por um braço clandestino capaz de praticar violências e ilegalidades sob o discreto e torto apoio oficial, oficioso ou extraoficial.

Chamar ao momento seguinte ao dia 26 como terceiro turno é cometer uma frase infeliz. Nada além disso, porém. Não se trata de golpismo, já que recursos contra o resultado das urnas estão previstos pelo código eleitoral. O problema se agrava é quando as declarações públicas têm uma linguagem que corre pelo subsolo da legalidade e movimentos de bastidores que negam a ordem legal, em busca da vitória a qualquer preço, numa guerra sem os limites de tratados e convenções obrigatórios.

No ano em que a república velha cedeu lugar à república nova, em 1930, um embaixador inglês, Ernst Halmbloch, publicou um livro dizendo que o chefe do governo devia ser tratado por sua excelência o imperador republicano. O maior efeito do livro foi a expulsão do embaixador do Brasil. O que ele disse então pode ser repetido até hoje.

O excesso de poder de quem ocupa os palácios do Planalto e da Alvorada, ou a Granja do Torto (que título emblemático!) é a razão de tudo isso. Como sua excelência tudo pode, o povo encolhe – para que os insaciáveis candidatos ao poder possam ainda mais, ameaçando a tenra plantinha maltratada em todas as eleições e esmagada nas estações seguintes: a democracia.


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