Eleição sem nova liderança

(Publicado no blog em 4 de outubro de 2014)

A presidente Dilma Rousseff vai vencer o 1º turno das eleições deste ano. A presidente Dilma Rousseff conseguirá se reeleger no 2º turno, superando qualquer dos concorrentes, provavelmente Marina Silva, do PSB, e não Aécio Neves, do PSDB.
Este é o desfecho indicado pelas pesquisas eleitorais disponíveis no dia 27, a uma semana do dia em que o cidadão, ao invés de responder a entrevistadores credenciados pelos institutos de pesquisa, acionará a tecla da urna eletrônica.

Quem chegasse de Marte e lesse esta matéria concluiria sem maior esforço: a eleição está decidida. As pesquisas medem cada momento eleitoral em que são realizadas. Pode fotografá-lo à perfeição. Pode cometer erros, simples ou graves. Podem induzir resultados. Podem influir sobre a consciência, a volubilidade, a volatilidade ou a vontade do cidadão. Nessa complexidade de fatores, podem ser um honesto esforço para antecipar a realidade. Mas podem ser também um desastre da manipulação, do exercício descontrolado do poder.

Se pode estar errada, falseada ou fraudada a sondagem feita segundo métodos científicos testados, o que pode um mero cidadão dizer do futuro do dia 5, data do 1º turno, ou do dia 16, da 2ª votação? Palpite (infeliz?). Chute (torto?). Manifestação de desejo (impublicável?).

O cidadão pode dizer, com um grau de confiabilidade equivalente ao dos institutos de pesquisa, que quase 20 milhões de eleitores votarão em branco, anularão seu voto ou deixarão para votar na última hora, se votarem (podem deixar de comparecer), ou se escolherem entre o branco e o nulo.

Além dessa manifestação direta de vontade, o cidadão já mostrou a falta de entusiasmo por esta eleição. A favorita, a presidente do PT, só agora chegou aos 40% das opções. Não é vantagem suficiente para elegê-la logo de saída, fator objetivo. Mas há um componente subjetivo que compromete sua legitimidade: a sua ascensão nas pesquisas foi conseguida não pela discussão de programas e ideias com seus adversários mais próximos.

Sua vantagem foi obtida através da tática da intimidação, seja na linguagem, nos argumentos, como abusando da possibilidade que o exercício do poder lhe dá, de completar a intimidação (chantagem?) mostrando os resultados da sua gestão, valorizados pelo toque de Midas do marketing político (pago por muito mais do que os valores contabilizados na prestação de contas à justiça eleitoral).

Essa manipulação não autoriza dizer que o eleitor começou a correr para o lado da presidente, comparando-a aos seus competidores, tendo à disposição parâmetros de referência e análise. Ele pode se tornar vítima da coação difusa que o exercício do poder (e o seu abuso) possibilitam àquele que disputa no cargo um novo mandato eletivo, sem sistemas de fiscalização e controle adequados para delimitar o que é legal do ilegal, o moral do imoral, o ético do antiético.

À parte essas considerações, há outros elementos qualitativos que, independentemente do resultado da eleição, lançam luz amarela e alertas à continuidade e crescimento da democracia no Brasil. A mesma candidata à qual as pesquisas dizem contar com 40% (41%/44% na margem de erro) das preferências, tem 31% de rejeição e apenas 37% de aprovação à sua condução do país.

Essa legitimidade também é solapada pela circunstância de que a mais próxima contendora da presidente, sob ataque intenso de maledicências, ainda tem 23% de rejeição, abaixo daquela vendida à maioria do eleitorado, que por ela opta nas pesquisas, como a melhor. Levada ao chão por golpes baixos, restou a Marina Silva se defender apelando para o emocional do povo, como, antes, fez Lula, quando ainda era acima de tudo um heroico sobrevivente nacional.

Essa guerra do vale tudo para vencer e manter o poder conquistado impediu a campanha eleitoral de ser o que é sua destinação: momento de educação política do povo através da práxis dos partidos e candidatos, confrontados em suas agendas para a nação. O emocional prevaleceu. Por vezes, o irracionalismo e o desprezo pela inteligência alheia, como se fosse possível deduzir da esquálida argumentação econômico-financeira de Marina que ela está atada aos bancos, que os donos das finanças se tornarão donos do país (como se já não fossem) e toda essa argumentação tola e de má fé.

O PT propagandeia como fruto da sua visão genial o que é conquista de todos e, mais do que isso, uma prova de que a sociedade brasileira sobrevive aos seus representantes porque não se restringe aos seus representantes.

Porque, mesmo na desmemória, ainda ressoa na sua mente as provas da contradição e do despreparo dos seus governantes. Ainda pode atinar para a diferença entre o que antes foi escrito e depois feito, como na era FHC, ou entre o que se diz ser a verdade e o que é a verdade na prova dos nove da demonstração.

O povo é grato aos que o descobriram, se lembraram dele ou por ele fizeram mais do que antes. Este é o mérito do PT no governo. Mas é um mérito relativo, condicionado por circunstâncias históricas e condições individuais. O problema do PT no poder foi passar a ser o profeta de todos os tempos, o monopolizador da verdade e, com as armas na mão, o anjo punitivo de tudo que lhe for adverso, inclusive o exercício alheio da inteligência. Um instante de extrapolação no exercício do poder que rapidamente pode passar para o efeito seguinte: a tirania.

Se a eleição tivesse conteúdo de pedagogia política, o cidadão aprenderia com os políticos a conter e fazer retroceder a corrupção, a chaga que mina todo esforço de construção do país. Não é mais um pecado moral (embora mortal): é um prejuízo que, subindo pelas escadarias dos bilhões de reais, desmorona o esforço produtivo nacional. É uma questão de sobrevivência. Com sem-cerimônia, o PT diz que essa ferida dilacerante é uma fanatsia: os casos se multiplicaram porque o seu presidente colocou na rua a Polícia Federal e lhe deu total autonomia para agir em defesa dos interesses públicos.
No entanto, há sete meses a Polícia Federal tenta ouvir o ex-presidente Luiz Inácio

Lula da Silva nas investigações sobre o chamado mensalão. Até agora os pedidos são na forma de convite, que o destinatário pode ou não aceitar. Se fosse na forma de intimação, em caso de recusa teria que ser levado coercitivamente, obrigado assim a depor. Lula foi apontado como tendo ciência dos fatos e deles se beneficiado por Marcos Valério, o principal “operador” do esquema de propina paga a políticos em troca da votação com o governo.

Valério formalizou suas denúncias junto à Procuradoria Geral da República em 2012, quando já estava condenado, mas ainda sem a sentença. Quando ela veio, pegou a pena maior: foi condenado a mais de 40 anos de prisão por diversos crimes, entre eles o de lavagem de dinheiro. No depoimento, acusou Lula de saber da existência do mensalão e de ter se beneficiado pessoalmente do esquema.

O publicitário mineiro, até então personagem restrito aos limites do seu Estado, disse que repassou quase 100 mil reais através da empresa de um ex-assessor de Lula para pagar despesas pessoais do então presidente em 2003.
Declarou ainda que Lula e o ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci, intercederam junto à companhia Portugal Telecom para que a empresa repassasse R$ 7 milhões ao PT.

As declarações de Valério se transformaram em pelo menos dois inquéritos policiais, que tramitam em Brasília e Minas Gerais. Foram instaurados outros seis procedimentos no Ministério Público Federal para apurar as acusações do operador do mensalão. Desses, pelo menos dois já foram arquivados, segundo apurou a Folha de S. Paulo. Procurado pelo jornal, o Instituto Lula não se pronunciou.

Segundo a Folha, o ex-presidente (2003/2010) “se esquiva dos ofícios por temer a exploração política das suas declarações, principalmente agora, no auge da campanha eleitoral”. Mas em fevereiro, quando a delegada Andrea Pinho, responsável por apurar as denúncias, em Brasília, começou a fazer os convites, não havia ainda eleição.

A policial não conseguiu até hoje que sua chefia aceitasse transformar o convite em intimação, como a situação já requer. Só obteve o que não pediu: foi removida do cargo que ocupava na Superintendência da PF em Brasília no mesmo mês de fevereiro. Mas continuou à frente da investigação.

Mesmo não tendo a obrigação de depor, Lula bem que podia ajudar na apuração que a delegada da PF está realizando, em busca da verdade.

Há caminhos legais para ele se recusar a depor para a delegada, mas, afinal, tanto Lula quanto Dilma Rousseff têm dito – e agora na propaganda eleitoral – que a Polícia Federal só se tornou independente depois que o PT assumiu o governo federal. E que o aparecimento de tantos escândalos de corrupção se deve justamente a essa nova circunstância. Antes, como ressaltou a candidata à reeleição, “tudo era colocado para debaixo do tapete; agora, não é mais”.

Por que então fugir à responsabilidade de cidadão? Se Lula garante que nada sabia das ilicitudes da sua turma de “aloprados”, era a hora de, confrontado com os fatos, demonstrar sua inocência e contribuir para a apuração de responsabilidade dos faltosos. Seu comportamento se assemelha ao da ditadura militar. Chamado a testemunhar sobre a tortura nos quartéis e repartições públicas, o general Ernesto Geisel, terceiro presidente do regime de exceção, disse que era coisa dos “bolsões radicais, mas sinceros”. Ou seja: pecado venial, remido com meia dúzia de credos.

Seria esse também o pecado dos “aloprados” do esquema do mensalão? Ou, mais uma vez, o que o PT diz não é para levar a sério?

O que levará a sério o eleitor no momento de registrar o seu voto? Como sua mente consolidará esse tumulto de fatos, interpretações, discursos e circunstâncias? Confirmando o que disse (se é que disse) às pesquisas, ou deixando a surpresa para última hora?


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