O PT e os banqueiros

(Publicado no blog em 10 de setembro de 2014)

O PT colocou no ar o ataque mais eficiente à candidatura de Marina Silva. O filme está sendo exibido durante o horário da propaganda eleitoral oficial (que nada tem de gratuita: o erário paga a conta às emissoras particulares pela cessão do horário e, naturalmente, repassa o custo para a bolsa do contribuinte). A peça deve render dividendos. Mas é falsa, além de mentirosa e representar uma ofensa à inteligência alheia.

A grande sacada do marqueteiro da campanha de Dilma é fazer a conexão do projeto de autonomia do Banco Central, que Marina já defendeu, com o dia a dia do cidadão comum. Se os banqueiros derem as cartas na economia, vai faltar comida, dinheiro e trabalho para o trabalhador comum. Os juros – extorsivos – engolirão tudo.

Por trás da mensagem está uma frase causticamente espirituosa (entronizada no inconsciente coletivo) do poeta alemão Bertolt Brecht. Ele aconselhava o seu leitor, desejoso de ficar rico, a fundar um banco, ao invés de assaltá-lo. A sabedoria popular também recomenda que se um banqueiro se atirar do alto de um edifício, é melhor segui-lo: lá embaixo deve haver muito dinheiro.

O banqueiro é a melhor representação do que há de maligno no capitalismo. A expressão é boa arma para ofender a quem se aplica a denominação. Por isso, a peça da campanha petista pode causar estragos à imagem da candidata do PSB.
Não adianta contra-argumentar que nas democracias mais sólidas a autonomia do Banco Central é uma condição para impor freios aos apetites imperialistas do governo central e que não é uma relação de causa e efeito (ou sequer de qualquer relação) entre a posição do Banco Central como autoridade monetária e a má sorte dos cidadãos sujeitos à usura implacável dos bancos. Para efeitos coletivos essa discussão, que é complexa e está sujeita a controvérsias, não produzirá efeito eleitoral.

Mas é fácil mostrar que o PT não se preocupou com a verdade. Quis apenas obter dividendos eleitorais – ilegítimos, aliás.
Quem foi o ministro da Fazenda de fato nos oito anos de Lula? Qualquer um responde na hora, até um petista encabulado: Henrique Meireles, o presidente do Banco Central do Brasil. Meireles desceu dos Estados Unidos para o seu país natal depois do Plano Real, que realmente recriou a moeda brasileira e promoveu a estabilidade financeira do país. Até então era o presidente mundial do Banco Boston, banqueiro de alto coturno, tão eficiente que foi admitido no clube privado, apesar de brasileiro.

Talvez se não houvesse o Real, Meireles continuasse em Boston. Ele voltou com um projeto de poder. Engajou-se em causas humanitárias e filantrópicas, e filiou-se ao PSDB, do qual se distanciou justamente para comandar o Banco Central. O que ele fez nos oito anos seguintes: garantir a continuidade da diretriz econômico-financeira do governo Fernando Henrique Cardoso. Para que ele realizasse seu objetivo, Lula foi mantido à distância do BC. Lula e o PT todo.

Petistas que não querem assassinar a história, mas também não cedem o braço para ser torcido, dizem que a política econômica de Lula seguia em piloto automático para garantir que, no setor social, o governo pudesse fazer o que o PSDB não fez, mesmo depois de criar alguns mecanismos de inclusão social e redistribuição de renda seguidos depois.

Com a eleição de Dilma, Meireles ficou fora do governo e Guido Mantega continuou a ser o ministro da Fazenda para inglês ver. Ao invés de continuar à margem do presidente do BC, que controlava os cordéis da política econômica, ele se tornou o ventríloquo da presidente. Fez tudo que ela mandou, assumindo a autoria dos atos.

Será que ele tinha consciência de estar agindo não exatamente de maneira distinta e oposta à política que até então emanava do Banco Central, mas de maneira oposta à que qualquer política econômica sensata e realista lhe imporia no exercício do seu cargo? Ou Mantega é mais um dos celebrados acadêmicos que não sabe dirigir um carro de pipoca, se tiver que manobrá-lo pessoalmente e não o induzir à distância, protegido pelo palavreado teórico?

Qualquer que seja a resposta para essa indagação, uma coisa está fora de dúvida: o ministro da Fazenda fez – e disse – muita besteira. Tanta que, na hora fatal da renovação pela via eleitoral, ele foi demitido de fato do seu posto, embora de direito nele permaneça, com acesso ao título de o ministro da Fazenda que mais tempo permaneceu sentado nessa delicada cadeira em toda a história republicana brasileira. Devia levar a cadeira para casa, como relíquia.

Com seu autoritarismo contumaz e sua sem-cerimônia para com a lógica, a história e outras ciências mais, a presidente fez eco às mensagens de crítica, irritação e protesto dos empresários (especialmente os de São Paulo): prometeu logo descartar os seus 39 acompanhantes de ministério, olhando especialmente para a cabeça do ministro da Fazenda, que vem sendo pedida há tempos já longínquos.

Um das marcas mais negativas dos dirigentes petistas é a de não assumir o ônus da chefia e da liderança. Quando surgem problemas graves, alegam de nada saber e logo degolam o auxiliar escolhido para bode expiatório ou boi de piranha. Dilma imita fielmente Lula nesse quesito. Sem carisma, porém, seu ato de eliminação se torna chocante. Ela tratou em seguida de corrigir a grosseria dizendo que Mantega já lhe pedira para sair, por motivos pessoais. E o ministro, no papel de vaca de presépio, confirmou.

Com todos esses antecedentes, como é que o PT tem coragem de investir contra Marina com essa lenga-lenga falsa, mentirosa? O máximo que se pode dizer é que Marina está repetindo o PT, que repetiu o PSDB (embora PT e Marina como farsa, já que sua retórica era – e continua a ser – contra a do antecessor). Se agora os Setubal estão ao lado da candidata do PSB, indiferentes ao quanto ganharam graças ao PT, seus sócios no Itaú, os Moreira Salles, estiveram com Lula.

Ingratidão de banqueiro ou premonição do que acontecerá? Talvez as duas coisas. Se o PT foi o partido que mais criou bilionários na história do Brasil, ter perdido sua devoção na undécima hora da decisão eleitoral pode causar a angústia que levou à criação da peça de marketing, na qual o que menos interessa é a verdade ou a coerência, mas manter o poder. A qualquer preço. Para qualquer fim. O Brasil tem sido assim (o que é uma rima, mas não a solução).


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