Propaganda

(Publicado no Jornal Pessoal 252, de fevereiro de 2001)

A Coordenação de Relações com a Comunidade da Prefeitura de Belém [administração Edmilson Rodrigues] elaborou um documento com os “procedimentos obrigatórios para inaugurações de obras do OP [Orçamento Participativo] ou visita do prefeito à obra”. Quem imagina a política como algo espontâneo, deverá ficar chocado com a leitura da peça. Hoje, contudo, ninguém tem mais o direito de ignorar que o meio é quase tão importante quanto a mensagem (embora muitos marqueteiros achem que é mais importante, ou é quase tudo). Logo, é justificável a preocupação dos dirigentes da CRC de extrair o máximo proveito dos atos da administração municipal, programando e antecipando o máximo do que poderá acontecer nos eventos públicos.

O documento recende a agitprop, de que os bolcheviques russos se valeram na disputa ideológica e que acabaria, na voragem da luta pelo poder, se transformando em manipulação de massa e técnica intimidatória. Vladimir Maiakóvski, com sua vida, e Serguei Eisentein, com sua arte, se tornaram dois dos mais conhecidos exemplos das distorções fatais assumidas pela agitação e a propaganda sob o império de Josef Stálin, o último czar. Colocada a serviço do partido único (e de uma verdade única, dogmática), a propaganda se tornou totalitária, uma distorção à esquerda do fascismo de direita de Hitler (neste caso, especificamente, de Joseph Goebbels).

Não chegamos a tanto em Santa Maria de Belém do Grão Pará, é claro. Mas algumas das sementes da intolerância podem estar contidas em certas normas recomendadas pela CRC. É natural que ela queira aproveitar as inaugurações e visitas públicas do prefeito para fixar entre a população “a ideia de um Governo Popular que realiza obras para o povo de Belém”, atacando na decoração e na fixação das imagens desses acontecimentos para ressaltar as características visadas pela comunicação para o público.

Mas já não terá sido ultrapassa a linha demarcatória da pluralidade democrática quando a CRC recomenda (com seu português para consumo interno): “As pessoas que irão falar pela comunidade devem ser orientadas no discurso, não que a gente vá escrever o que a pessoa vá dizer, mas devemos dar o norte”?

Ou quando orienta os assessores para que, antes de qualquer evento, avaliem “se não existe nenhum setor de direita que queira prejudicar o evento”, repassando para a coordenação “qualquer informação a respeito”? Como caracterizar um “setor de direita”? Aquele que estiver sentado à direita do prefeito, fonte da definição da verdade? O crítico incômodo? Aquele que teima em exigir respostas convincentes para suas dúvidas?

Inventar a intolerância é fácil. Desinventá-la, é algo que está além até mesmo de uma imaginação criadora como a de Lewis Carrol. Será que ele pensaria neste lema para seu país das maravilhas: “Na CRC não tomamos mel. Mastigamos abelhas”?

Claro que não: deixamos o reino da fantasia e entramos numa seara onde mais apropriado é invocar pelo nome de Thomas Hobbes. Antes da materialização de um Behemoth, ou de um Leviatã.

Silêncio

Edmilson Rodrigues iniciou seu segundo mandato de prefeito de Belém mantendo o Diário Oficial do Município como publicação semiclandestina. A tiragem é pequena, mínima – e, além disso, precária. Não há esquema de distribuição. Quem se interessar pela publicação terá que ir buscá-la na sede da Secretaria de Administração, mesmo que faça uma assinatura. Mas não há regularidade na circulação do DO, que, por isso, se transformou num hebdomadário de aparição incerta e não sabida, enquanto a propaganda do executivo é feita à larga, pontual.

Na semana passada os vereadores se queixavam de que, desde o início do ano, ainda não haviam visto uma vez sequer o DO, a publicação que registra os atos da administração municipal, dando-lhes validade legal e permitindo seu acompanhamento pela opinião pública (o princípio da publicidade é uma das obrigações da administração pública).

Enquanto isso, o Diário Oficial do Estado pode ser adquirido nas bancas, circula todos os dias da semana, é entregue em domicílio e publica, com razoável riqueza de detalhes, todos os atos do governo, que, neste particular, cumpre o que lhe determina a lei.

Já o “governo do povo” deve achar que povo bom é só o que aplaude.


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