Contra a dissonância

Reproduzo para os leitores deste blog o trecho final da resenha que Ladislau Dowbor, economista e professor da PUC de São Paulo, fez no seu blog do livro de Barbara W. Tuchman, The March of Folly: from Troy to Vietnam (Random House, New York, 2014, 470 páginas), que pode ter amplo uso por lados convergentes ou divergentes da conjuntura nacional. Assinalei partes que me pareceram mais importantes para auxiliar os que se empenham contra a marcha da insensatez, tão bem combatida pela grande historiadora. 

A autora usa um conceito rico, cognitive dissonanceque poderíamos traduzir como dissonância cognitiva, em que o conjunto da narrativa criada se mantém, apesar dos fatos a desmentirem de maneira escandalosaEntre a realidade e a narrativa, dane-se a realidade. “Para o governante é mais fácil, uma vez que entrou num casulo político (a policy box), permanecer dentro dele. Para um político em nível hierárquico inferior é melhor, para o bem da sua posição, não gerar marolas, não pressionar com evidências que o chefe encontraria penoso aceitar. Os psicólogos chamam esse processo de filtrar evidências discordantes de ‘dissonância cognitiva’, uma forma fantasiosa para o acadêmico dizer ‘não me confundam com fatos’” (p.322). Em outros termos, o apego aos erros torna-se mais rígido. Como é possível, com mais de 1,5 milhões de toneladas de bombas, mais do que da II Guerra Mundial, os vietnamitas não se convençam de que devem negociar? Mais bombas! (p.367).

Tuchman, claramente, não tem muita confiança na lógica do poder ou na inteligência dos grupos que o manejam. “A ausência de pensamento inteligente no exercício do poder é outro dado universal, que levanta a questão de a que ponto, nos estados modernos, há algo na vida política e burocrática que reduz o funcionamento do intelecto em favor de ‘manejar as alavancas’ sem considerar as expectativas racionais. Isso parece ser uma prospectiva que se mantêm.” (398) A filosofia que permeia os escritos de Barbara Tuchman resulta sem dúvida dos seus próprios estudos da história, mas o seu ceticismo relativamente ao exercício do poder tem raízes mais antigas. A autora lembra Platão: “Ele também teve de aceitar que os seus colegas humanos estavam ancorados na vida de sentimentos, agitados como bonecos pelos fios dos desejos e medos que os fazem dançar. Quando o desejo não está de acordo com o julgamento da razão, disse ele, há uma doença na almaE quando a alma se opõe ao conhecimento, ou opinião ou razão que são as suas leis naturais, isso eu chamo de insensatez” (p.404).


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