O massacre das crianças

Havia apenas três meses que Jailson Carvalho da Silva estava vivendo com Fernanda Rodrigues Mendes, ambos com 23 anos, em um dos quartos de uma vila de kit-nets no bairro da Cabanagem, um dos mais violentos em uma Belém que é espacialmente democrática em relação ao crimes: eles acontecem em todo o seu espaço municipal e metropolitano, apenas com variação de frequência.

Quando se abrigou no lugar, Jailson já encontrou uma filha de dois anos da nova companheira. Passou a ser o padrasto da criança. No final da manhã de sexta-feira, 7, Fernanda fazia o almoço quando começou a discutir com o companheiro, que tratava com grosseria a criança. Jailson se levantou da cama para agredir a mulher. A menina começou a chorar.

“As informações que chegaram ao nosso conhecimento foram que uma discussão entre um casal culminou em agressão física. O homem espancou a esposa e, nesse momento a criança, filha apenas da companheira, começou a chorar. Para calar o choro da criança, ele pisoteou por três vezes a região abdominal dela e, provavelmente atingiu os outros órgãos vitais. Na hora, a criança desfaleceu. A mãe pegou a criança, pediu ajuda de um vizinho e a levou até o posto de saúde da Marambaia. Mas quando chegou na unidade, a criança veio a falecer. Tudo vai depender da perícia para saber se a menina chegou morta ou se ainda passou por algum procedimento”, detalhou ao jornal Diário do Pará a delegada Sílvia Mara Tavares, da Unidade Propaz do Instituto Médico Legal, onde o caso foi registrado.

Guardas municipais, comunicados sobre o fato, chegaram ao local quando moradores, que impediram a fuga de Jailson, começavam a agredi-lo. Os vizinhos estavam revoltados. Eles relataram que na noite anterior a criança chorava muito. E durante a manhã também.

A repórter Michelle Daniel transcreveu a conversa que manteve com a mãe da criança:

– Ele batia na cara dela. Dava choques na minha filha.

– O que aconteceu nessa manhã?

– A gente ‘tava’ brincando. Virei as costas para fazer o almoço. Ele ficou brincando com ela em cima da cama. Ela começou a chorar. Quando olhei, ele tava mordendo o pé dela. Pedi para ele parar, ele disse que não ia parar. Depois a gente começou a brigar. E ele bateu nela.

– Ele costumava bater em você? E na criança?

Sim. Em mim já bateu outras vezes. Há um mês ele vem batendo nela também.

– Como eram as agressões?

Ele me dava socos. Batia na cara dela com tapas no rosto, com a sandália. Pisava na barriga dela.

– E a arma de choque? Para que ele usava?

– Ele dava choques na minha filha. Assustava ela.0

– Por que você não denunciou, não pediu ajuda?

Eu passava o dia todo trancada em casa. A gente mora há pouco tempo nessa região. Não conheço ninguém aqui. Ele também me ameaçava.

– Por que não entregou a criança para o pai criar?

– Pois é… Me arrependo de não ter feito isso.

– E agora? Com a filha morta, qual o sentimento por ele?

(Não houve resposta).

UM CASO EXEMPLAR?

Acompanhei o caso pela televisão, chocado e revoltado. Li o pouco que apareceu na imprensa escrita. Observei longamente as imagens do assassino. Ele prestou longas declarações à repórter da televisão. Não deu mais informações porque ela não quis saber de mais detalhes, alguns relevantes ou mesmo essenciais para uma boa reconstituição dos fatos e dos seus personagens.

Os jornalistas estão cada vez mais presos a um repertório pobre em pautas burocráticas, e a lugares comuns de raciocínio e clichês de linguagem. Repórteres de linha de frente rompem os limites profissionais para expressar seus sentimentos e demais subjetividades, até chorando diante das câmeras. Poderia ser até uma atitude louvável, além de compreensível, se ao menos eles tratassem de responder às velhas cinco perguntas do ofício (o que, quem, quando, onde, por quê). O público, seu patrão, quer isso: dados para se informar melhor e poder analisar os acontecimentos.

Jailson respondeu a tudo que lhe foi perguntado. Não foi telegráfico ou hostil. Falou bastante, em tom monocórdio, com as expressões crispadas, mas estáveis, sempre agressivo, mas não por uma emoção eventual: por ser sempre assim.

Arriscando um diagnóstico: um psicopata. Sem remorso, sem abalo, frio, descrevendo o bárbaro crime que cometeu como se não fosse o autor das sórdidas agressões praticadas contra uma criança. Falando de si como de um terceiro. Os especialistas são unânimes diante de tal personalidade; ele voltará a matar, até da mesma forma, se continuar solto.

Um psicopata tem que ser imediatamente retirado do convívio social. Se possível, para sempre. É irrecuperável. A pena não pode ser limitada pelo máximo atual, de 30 anos. Nem pode receber qualquer benefício, como a progressão por bom comportamento. Tem que ser cumprida integralmente, numa cela para criminosos perigosos, isolados.

Para isso, o código penal precisa ser urgentemente modificado pelo legislativo, o poder executivo tem que dar prioridade à retenção definitiva dos homicidas perigosos, a justiça tem que dar andamento célere a processos que os envolvam e o Ministério Público tem que sair da inércia para levar esses assassinos às barras da justiça. A ação contra Jailson, por exemplo, já deveria estar sendo preparada para ser protocolada na segunda-feira, com instrução de urgência urgentíssima.

Outra questão grave diz respeito a mães precoces, despreparadas para o significado da maternidade e da formação da própria família, e, sobretudo, para as jovens da periferia, sem suporte familiar, sem sustento próprio, inexperientes, vítimas da difusão de um modo de vida de excessos e de uma condição de inferioridade.

Ainda solteira, Fernanda engravidou aos 19 anos e se separou do pai da sua filha. Mal encontrou um namorado, foi morar com ele, levando a filha. Jailson a espancou desde o início do relacionamento. Logo passou a agredir também a criança. Fernanda continuou ao lado dele sem tomar qualquer iniciativa capaz de impedir a progressão da violência. Tinha medo das ameaças que ele fazia.

Mas podia ao menos ter preservado a filha, entregando-a ao pai. (e sua mãe, avó da menina?). Teria continuado a sofrer com Jailson se ele não tivesse matado a sua filha. Fernanda ficou abalada pelo ato do companheiro, mas restou uma dúvida: a reação foi proporcional ao que ela viu, a covarde, violenta e selvagem sucessão de agressões à criança, até a morte?

O que a imobilizou em certa medida: o espancamento que ela própria já sofrera? O medo de voltar a ser agredida? A avaliação incorreta para a gravidade das agressões de Jailson à filha? A esperança de que, como das outras vezes, a violência chegasse ao fim e a vida a dois pudesse ser retomada? Ou algum impulso inconsciente mais patológico, que não se pode formular publicamente sem mais informações sobre a reação de Roberta no momento mesmo dos fatos.

É muito significativo o silêncio de Roberta à pergunta que a jornalista lhe fez: “E agora? Com a filha morta, qual o sentimento por ele?”. Mesmo respeitando-se a dor da mãe e o drama triste que ela tem vivido como vítima de um psicopata, não há dúvida: ela não se comportou como boa mãe diante de um homem que violentava (até que medida?) a sua filha.

A quem caberia prevenir ou evitar a consumação trágica de milhares de dramas que se sucedem todos os dias em famílias desestruturadas, envolvendo gente sem condições de assumir suas responsabilidades em relacionamentos humanos?

Ao Estado, é claro. Retóricas, promessas e conversas a parte, o Estado age melhor do que esses personagens individuais? Ou por ação e omissão, por incompetência ou desonestidade, por displicência ou má fé, ele até contribui para multiplicar e agravar esses problemas?

A advogada e pastora evangélica Damares Alves, indicada para assumir o ministério mais importante na área social e cívica do governo Bolsonaro, anunciou que a criança será prioridade na sua gestão. Disse que manterá entendimentos com os demais ministérios para que essa política se efetive.

Será para valer mesmo? Ela tem disposição e preparo para fazer o que promete? E o que é mesmo que pretende fazer? Por que não discute desde já as suas ideias com a sociedade, ao invés de deixar tudo para depois da sua posse?

A criança será prioridade no Brasil quando o governo não deixar nenhuma delas fora da escola; lhes der escolas de qualidade; recrutar bons professores, com recursos para o seu desempenho; fornecer comida nutritiva às crianças e punir severamente o desvio de dinheiro à merenda escolar, um dos crimes que mais clama aos céus, e, não obstante, um dos mais corriqueiros; criar uma rede de creches para absorver as crianças necessitadas; e tantas outras providências inexistentes ou mal aplicadas.

Algumas iniciativas, apesar de simbólicas, por isso mesmo teriam importância vital. Como assegurar a segurança policial em todas as escolas públicas e exigir o mesmo dos estabelecimentos particulares, acrescentando um agente de trânsito nos horários de entrada e saída dos estudantes. Afixando placas de advertência e faixas de pedestres em toda área próxima a escolas. Aumentando exponencialmente o valor das multas para quem desrespeitar essas regras.

Não se pode continuar a assistir esses crimes apenas com bons sentimentos. Eles não impedem que uma criança de dois anos seja massacrada por um psicopata diante da mãe que o adotou como marido e padrasto da filha depois de o conhecer três meses antes.

Chega!


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