O verdadeiro repórter

O jornalista saudita Jamal Khashoggi, que era articulista do Washington Post, foi assassinado barbaramente, em 2 de outubro deste ano, no consulado de seu país em Istambul. A jornalista filipina Maria Ressa é perseguida pelo regime ditatorial de Rodrigo Duterte. As jornalistas birmanesas Wa Lone e Kyaw Soe Oo, correspondentes da agência britânica de notícias Reuters, foram presas. Cinco funcionários americanos foram executados durante uma invasão do jornal local Capital Gazette, de Annapolis, Maryland, no qual trabalhavam, em 28 de junho.

Só os cinco últimos não eram jornalistas, mas morreram por causa de um ato de violência contra o jornalismo de linha de frente, que testemunha os fatos e os relata conforme os viu e percebeu. Todos eles foram escolhidos Personalidades do Ano pela revista norte-americana Time, na sua célebre edição de fim de ano.

“Como todos os dons humanos, a coragem chega a nós em quantidades e em momentos diferentes”, disse o diretor da revista, Edward Felsenthal, ao jornal espanhol, El País. “Este ano reconhecemos quatro jornalistas e uma empresa jornalística que pagaram um preço terrível por enfrentar o desafio deste momento”. A Time anunciou sua decisão com a publicação de quatro capas diferentes, com o título The Guardians and the War on Truth (os guardiães e a guerra pela verdade).

El País ressalta que a revista também faz uma menção ao Brasil, mais precisamente à jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo. “No Brasil, a repórter Patricia Campos Mello foi alvo de ameaças depois de informar que partidários do presidente eleito Jair Bolsonaro haviam financiado uma campanha para espalhar notícias falsas sobre o WhatsApp”. Ouvida pela revista norte-americana, Cristina Zahar, secretária-executiva da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), diz que “com a polarização, a crença em sua própria verdade se fortaleceu, e não importa se os outros dizem que é mentira”.

“Estes são novos tempos, realmente novos tempos”, diz, em referência aos ataques de Bolsonaro à mídia, acrescentando que “os jornalistas precisam encontrar maneiras de lidar com isso.”

A distinção à Pessoa do Ano é feita desde 1927 a uma única pessoa viva. A tradição foi quebrada pela segunda vez consecutiva em que a publicação reconhece um grupo e não um só indivíduo. No ano passado o destaque foi concedido às mulheres que romperam o silêncio contra o assédio sexual..

A iniciativa deste ano é oportuna. O traço em comum entre os jornalistas premiados é que enfrentam as adversidades para se tornarem testemunhas dos grandes acontecimentos do dia a dia no momento mesmo em que eles se consumam. E arcam com as consequências do que escrevem. Respondem não só pela fidelidade aos fatos como pelas reações adversas que eles provoquem. Estes são os verdadeiros repórteres, aqueles que não atalham caminhos em busca de uma celebridade ou negociam seus textos. Podem pagar caro pelo compromisso e a coragem. Sem eles, porém, o jornalismo não passaria de burocracia de aluguel, ou, como assinalou Millôr Fernandes na frase (sempre lembrada e pouco aplicada), seria armazém de secos & molhados, mesmo com muitos secos e muitos molhados.


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