O de sempre, infelizmente

Agressões morais e físicas a jornalistas constituem um dos sintomas da propagação de ondas de intolerância, ódio e destrutividade, que caracterizam o autoritarismo das pessoas e a inspiração ditatorial de grupos que têm ou almejam o poder.

É a hora de sair em defesa da liberdade de pensamento, de informação e de imprensa para que não se chegue ao desfecho desses impulsos: a ameaça à democracia.

O ambiente está se tornando perigosamente explosivo nestes dias que antecedem o 2º turno da eleição deste ano. As manifestações mais agressivas são dos adeptos do candidato Jair Bolsonaro. Independentemente de se identificar qualquer conexão entre os integrantes da campanha de Bolsonaro, o seu discurso libera tensões contidas ou as multiplica. É uma avant-première do que pode vir com a sua vitória. Ele é o detonador imediato.

A culpa do PT também não pode ser esquecida. Não é porque agora, por conveniência estratégica, que o candidato Fernando Haddad se manifesta com espírito conciliador e apaziguador que se pode esquecer o fanatismo de militantes petistas, por ora contido.

Não por acaso, a jornalista Miriam Leitão tem sido alvo dos dois grupos, em conjunto ou intercaladamente. Ao invés de expressarem divergências e críticas a ela, os que não concordam com suas opiniões se tornam desafetos ou inimigos ferozes. É preciso defender o direito de opinião de Miriam, Por isso, reproduzo a seguir a nota da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a Abraji, me solidarizando com Miriam Leitão.

O assédio direcionado a jornalistas em redes sociais continua após o encerramento do 1º turno das eleições de 2018. A jornalista Miriam Leitão (GloboNews/O Globo/TV Globo) é alvo de enxurradas de comentários agressivos e difamatórios. No WhatsApp, circulam montagens descontextualizadas com fotos dela quando presa durante a ditadura militar.

Os ataques a Miriam se intensificaram na última sexta-feira (5.out.2018), após a publicação da coluna “Críticas a Bolsonaro foram menos intensas do que deveriam”, e depois de fazer na televisão considerações sobre o comprometimento com a democracia dos candidatos que disputam o segundo turno.

Os comentários vêm de apoiadores do candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL-RJ) e de perfis com grande alcance nas redes. O conteúdo varia de ofensas pessoais e observações machistas a propagação de notícia falsa. No WhatsApp, mensagens apócrifas a acusam falsamente de ter participado de um assalto a banco no período da ditadura militar. À época do dito assalto, ocorrido em São Paulo, Miriam era uma adolescente de 15 anos e morava em Minas Gerais.

Quando foi presa pelos militares, Míriam tinha 19 anos e estava grávida. Foi vítima de torturadores covardes e cruéis. Fazer uso desse episódio traumático para atacar a jornalista é não apenas uma demonstração de desrespeito à liberdade de imprensa, mas de perversidade.

Na história recente, não é a primeira vez que a profissional é alvo de agressões por motivos político-partidários. Em junho de 2017, ela foi hostilizada por delegados do PT em um voo de Brasília para São Paulo.

A Abraji manifesta apoio a Miriam Leitão e a todos os comunicadores atingidos por hostilidades e ameaças relacionadas ao cenário eleitoral. Até o momento, são 75 casos em ambiente digital.

A multiplicação da violência contra comunicadores relacionada às eleições configura grave risco à democracia e precisa cessar. Os concorrentes aos cargos eletivos devem assumir a responsabilidade de repudiar e desencorajar publicamente cada ato deste tipo.

Diretoria da Abraji, 10 de outubro de 2018.


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