A Província: uma quitanda?

(Publicado no Jornal Pessoal 247, de novembro de 2000)

A edição de A Província do Pará do dia da eleição do 2º turno para prefeito teve três manchetes. A primeira, preparada na madrugada do dia 28, sábado (“Paz nas eleições”), foi mudada para “Belém pede paz” no final da tarde. Parte da edição dominical circulou dessa maneira. Mas uma rodada adicional, que deveria ter chegado à marca extraordinária de 25 mil exemplares, circulou com uma manchete escrita pessoalmente pelo dono do jornal, Gengis Freire, depois das 22 horas (quando a edição normal já estava em circulação).

Essa manchete de encomenda anunciava que “Duciomar vence eleição”, tomando por base uma pesquisa que a Opção teria realizado depois da sondagem do Ibope, divulgada sábado à noite pela TV Liberal (e, em seguida, no jornal O Liberal), dando uma vantagem de 8% para o candidato do PT, considerando apenas os votos válidos. O “Belém pede paz”, de manchete que era, passou a ser uma legenda de foto e uma chamada para matéria publicada internamente.

Apenas um jovem diagramador e os gráficos que participaram da impressão não se surpreenderam quando a edição quase clandestina irrompeu nas ruas, distribuída por bocas-de-urna de Duciomar, que foram à oficina de A Província buscar os exemplares do jornal. Integrantes da campanha do adversário do prefeito Edmilson Rodrigues acertaram com Gengis que uma tiragem de 25 mil exemplares seria rodada, mas naquele momento só havia uma bobina inteira e menos da metade de outra na oficina. Com esse papel, a tiragem não podia ir além de cinco mil exemplares.

Todos os demais funcionários da empresa só tiveram conhecimento da estranha manchete no dia seguinte. Dias depois, o secretário de redação, Alberto Silva Neto, responsável legal pelo jornal, pediu demissão do cargo, inconformado com a atitude do seu superior. Gengis Freire havia chegado ao máximo de envolvimento com o candidato da coligação liderada pelo PSD, mas tendo por trás o governador Almir Gabriel. Quando o grupo Liberal resistiu às pressões e decidiu publicar a pesquisa do Ibope, que, surpreendentemente. deu uma grande vantagem para Edmilson na véspera da eleição, a manchete preparada por Gengis passou a ser uma arma da contra-propaganda de Duciomar.

A escalada em favor do ex-quase-futuro médico foi antecedida pelo rompimento de A Província com a prefeitura de Belém, uma das etapas do zigue-zague do jornal entre os poderes, seguindo a trilha das verbas publicitárias oficiais. De acordo com o movimento do caixa, o jornal de Gengis foi almirista radical, extremado a favor de Edmilson Rodrigues ou um quinta coluna de Duciomar (sem falar no idílio interrompido – e aparentemente reatado –com a Unimed-Belém).

Essas mudanças, entretanto, não seguem um processo evolutivo: têm sido súbitas e radicais. Também não apresentam uma causa editorial discernível: uma administração louvada sem medidas num dia é criticada sem discernimento no outro, algo que parecia próprio do jornalismo marrom, mas parece ter grassado como praga pela grande imprensa local. Não há a menor preocupação com a coerência, nem o mais elementar respeito à memória do leitor (e, menos ainda, aos compromissos com os funcionários da empresa).

Gengis Freire transformou um jornal secular num mero balcão de negócios. Tem comercializado espaço, informação e opiniões. O PT era maravilhoso quando prometia descarregar 800 mil reais em impressos eleitorais na Cejup, a editora e gráfica de Gengis. E ordinário quando não cumpriu a promessa, que teria sido feita ao editor pelo vice-prefeito eleito Valdir Ganzer.

Mesmo em seus momentos mais críticos no passado, A Província do Pará sempre cultivou seu título como seu maior patrimônio. Provavelmente se excedeu em tais cuidados, perdendo as oportunidades que a história lhe permitiu de firmar sua posição no mercado e consolidar um projeto profissional concebido originalmente por Frederico Barata, no final da década de 40, consolidado por Cláudio Augusto de Sá Leal nos anos 60 e, sempre tendo a mão forte de Milton Trindade nos bastidores, retocado em seguida por Roberto Jares Martins.

A Província de Gengis entristece a nós todos, que ali começamos, ali deixamos muito do nosso suor e ali depositávamos as esperanças em uma imprensa mais isenta, embora participante. A busca da impossível neutralidade esfriou, a princípio, e congelou, depois, o lugar que cabia ao jornal quando Frederico Barata quis dar-lhe um profissionalismo que o líder dos jornais, a Folha do Norte, não queria ou não conseguia alcançar. E quando a Folhados Maranhão se consumiu nas cinzas de germinação de O Liberal, essa assepsia a desligou dos dramas correntes do povo paraense. Havia brilho em editoriais e matérias, mas das páginas recendia um cheiro de éter, que cabe em sala de cirurgia, necessariamente estéril, mas é mortal numa redação, obrigatoriamente contaminada pelas contradições temáticas.

Durante uma parte do período em que A Provincia funcionou também como uma escola de jornalismo, na metade da década de 60, Gengis Freire compareceu à redação com uma coluna sobre letras e artes, composta de press-releases, orelhas de livros, transcrições de textos e uma ou outra pitada eventual de criatividade própria.

Éramos todos, então, candidatos a literatos. Não supúnhamos que ele também viesse a ser candidato a empresário e dono do jornal. Se alcançou essa condição por seus méritos, desperdiçou a oportunidade de ligar seu nome a uma fase de rejuvenescimento de um dos mais antigos jornais do país. Ao contrário: por ele está passando como Átila sobre Roma, ou um romano sobre Cartago. Sem o menor vestígio de uma causa nobre.

A Província que ajudamos a construir merecia destino melhor.


Print   Email