Imprensa chapa branca

O advogado constitucionalista Michel Temer é o primeiro presidente da república indiciado por corrupção no exercício do cargo. Conseguiu se livrar de duas denúncias contra ele formuladas pela Procuradoria Geral da República.  Um terceiro indiciamento pela Polícia Federal está sendo examinado pela PGR, que pode – ou não – denunciá-lo novamente. Ontem, a PF pediu a abertura de um quarto inquérito contra ele, a pouco mais de dois meses do fim do seu mandato, que ele herdou quando a titular, Dilma Rousseff, foi afastada num processo de impeachment e seu vice-presidente a substituiu.

Quem só lê o Diário do Pará ficará sem saber desse fato. A edição de hoje do jornal ignorou completamente a nova solicitação que a PF fez, a partir de denúncias de uma delação premiada homologada pelo Supremo Tribunal Federal, de que o presidente da república recebeu propina (de quase seis milhões de reais) antes e depois de assumir a mais elevada função pública do país, em troca de favorecimento ao corruptor.

É verdade que o jornal pertence à família do senador Jader Barbalho, do MDB, o mesmo partido de Temer. Também é verdade que Helder Barbalho, candidato ao governo do Pará pelo MDB, foi por duas vezes ministro no governo Temer. Ele e o pai têm que ser reconhecidos pela verba federal liberada em favor de Helder, ajudando-o a ser o preferido dos eleitores nas pesquisas de opinião.

Mesmo com tudo isso, o Diário do Pará é um jornal e jornal existe para informar da melhor maneira possível os seus leitores. O Diário podia dar a notícia escondida em algum canto de página. Podia também publicar um editorial com as razões de Temer, que pediu a nulidade do inquérito porque a PF não poderia realizá-lo em função dos eu foro privilegiado. A competência, nesse caso, é da PGR. Mas teria que divulgar a informação para não se transformar numa quitanda ou num simples balcão de negócios e conveniências dos seus donos.

O agora compadre O Liberal não colocou o assunto na primeira página, como deveria. Mas deu uma página inteira na capa do 2º caderno, o Poder, da edição de hoje. Manteve pelo menos a aparência de isenção e objetividade, Mas não tanto que desfaça a impressão de que o acerto com o antigo inimigo vai muito além (ou abaixo) do compromisso de bem informar o leitor. Pode chegar a uma combinação completa, que se revelará como tal quando – e se – Helder Barbalho for eleito governador, no próximo dia 28. Pelo que tudo indica, aí a grande imprensa se tornará chapa branca, mantida pelo tesouro do Estado.

Ou seja: mudará o agente pagador, mas a transação será a mesma da sempre, atrelando a imprensa ao governo.


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