Tempo de perseguições e altivez

(Publicado no Jornal Pessoal 651, de março de 2018)

Ao morrer, em janeiro deste ano, às vésperas de completar 87 anos, Carlos Heitor Cony era um dos escritores brasileiros mais produtivos de todos os tempos. Sua obra inclui acima de duas centenas de títulos. É o que computa a sua bibliografia, preparada pela Academia Brasileira de Letras, à qual pertencia. Ela impressiona pela fecundidade e pela qualidade média em toda ela e superior em matéria de ficção e crônica.

Talvez nenhum outro ficcionista tenha retratado melhor a classe média brasileira, especialmente a da zona sul do Rio de Janeiro, projeção e protótipo da entidade nacional. Seu primeiro romance, O ventre, publicado pela Editora Civilização Brasileira em 1958, completa agora, por acaso, 60 anos. Cony o deve ter escrito entre os 26 e 27 anos, quando era um jornalista com passado de seminarista, filho de jornalista (o pai foi personagem do deslumbrante Quase memória).

O Ventre chegou à 12ª edição meio século depois, em 2008. Em 2014, Quase Memóriaatingiu a 29ª edição. Outros livros também alcançaram grande sucesso e público e crítica. Para mim, sempre foi uma surpresa que Posto Seis (numa referência à parte de Copacabana, na divisa com Ipanema, onde o escritor morava) não tenha ido além de 1966, na sua primeira e única edição, que li logo depois de pub licado.

Nessa época, Cony já escrevera nove livros, oito deles de ficção. O primeiro de crônicas, Da arte de falar mal (título da sua coluna no Correio da Manhã), tivera pouca repercussão. O segundo, O ato e o fato, é que lhe daria dimensão nacional. Foi a primeira reação de um intelectual (até então um pequeno burguês pouco interessado por política) ao golpe militar, num jornal que apoiara a deposição de João Goulart para, logo em seguida, passar a criticar os militares que o derrubaram. O livro alcançou sua 9ª edição em 2014.

Meu primeiro contato com Cony foi em 1962, com Matéria e memória, em edição de bolso da Civilização Brasileira, de Enio Silveira (o mais liberal dos comunistas). A partir daí, li os volumes já lançados e passei a me atualizar a cada novo livro. O ato e o fato foi uma fonte de reconforto, em 1965. Mas Posto Seis foi um deslumbramento. Um dos melhores livros de crônicas (gênero genuinamente brasileiro) da literatura.

Esperando que a obra seja finalmente reeditada, reproduzo duas das memoráveis crônicas de Cony, num momento de integridade e dignidade que lhe iriam faltar no futuro, acrescida da nota que se seguiu ao último dos seus textos publicados no Correio, padrão de um tipo de jornalismo que ele, com o tempo, se foi distanciando, até negar-se por completo. Mas já tinha plantado boas sementes nessa caminhada inversa à de Damasco.

Primeiro a crônica antológica, apropriada aos tempos que vivemos a partir de uma época também de violências, intolerâncias e obscurantismos, na qual Cony nos representava e elevava.

A rima e a insistência

Os cavacos do ofício e da vida me haviam reservado um transe amargo e talvez desnecessário: sou réu. Para um sujeito acomodado e triste, submetido aos mil acidentes da carne e do espírito, a condição de réu, embora não infamante, estava absolutamente fora das cogitações.

Mas eis: sou réu. Por obra e graça do ministro da Guerra enfrentei o meritíssimo da 12ª Vara Criminal. Aturei o libelo e outras formalidade da dura lei. E estou preparando o insubmisso espírito e a complacente carne para o que der e vier. Meu crime é simples de ser exposto. Desde a quartelada e 1º de abril que venho cometendo ete crime, em edições compactas de centenas de milhares de exemplares. Meus artigos foram lidos nas prisões, nos navios-presídios, nos quartéis, nos lares e nas escolas. Profissionalmente falando, podia encerrar minha modesta e curta carreira de jornalista.

Além da profissão, no plano estritamente humano, cumpri um dever para comigo mesmo. Não tenho, pois, do que me arrepender. Até aqui, os homens do governo pretendiam punir a corrupção e a subversão existente até o dia 31 de março. Mas os ministros militares que me processam fizeram-me a elementar justiça: reconheceram que eu não sou corrupto nem subversivo. Sou, talvez, o primeiro adversário deste governo que está pagando por um crime presente: o de não concordar com o atual estado de coisas. É quase uma glória.

Entreguei minha causa a um advogado dos mais ilustres: Nelson Hungria. Tratadista, ex-ministro do Supremo, professor de gerações, penalista de fama internacional, considero-me em boas e honradas mãos. Desde já, independente de qualquer resultado de ordem prática, quero ressaltar a honra que me coube: ser defendido por homem tão ilustre e probo. A ele e aos seus auxiliares, meu agradecimento.

As artimanhas de um processo são estranhas e inesperadas. De uma hora para outra, tive de arranjar testemunhas. O promotor trouxe um esquadrão contra o insignificante escriba: os três ministros militares e o secretário de Segurança da Guanabara [atual Rio de Janeiro]. Para contrabalançar este esquadrão, potente apenas em sua força temporal, arranjei outro: Austregésilo de Athayde, Fernando Azevedo, Carlos Drummond de Andrade e Alceu de Amoroso Lima. Daqui a dez anos, ninguém saberá quem foi o sr. Arthur da Costa e Silva ou o sr. Gustavo Borges. Mas daqui a cem anos, o Brasil, os nossos netos e bisnetos aprenderão e respeitarão os nomes que deporão a meu favor. Já é uma vitória, além da glória – para rimar e insistir.

Por sugestão de amigos, convidei o presidente da ABI [Associação Brasileira de Imprensa] para testemunha. Mas o atual presidente, embora tenha aceitado em princípio a escolha, mais tarde meditou melhor e resolveu desistir. Compreendo a atitude do Sr. Celso Kelly. Não o procurei na qualidade de Celso Kelly, mas na de presidente da ABI. E o presidente da ABI, alegando relações cordiais entre a sua nobre pessoa e a nobre pessoa do ministro da Guerra, achou que um testemunho em favor do jornalista poderia estremecer a cordialidade com o militar.

Não só compreendi a atitude do Sr. Celso Kelly, como alegremente me regozijei com ela. É, na realidade, motivo de justo jubilo, o fato de termos, nós jornalistas, um presidente que goze das boas e inefáveis graças do honrado ministro da Guerra. Iremos para a cadeia, muitos já estão na cadeia, mas isso é também motivo de júbilo e honra para todos nós. Nosso presidente é cordialmente recebido pelo ministro da Guerra e aceita seus cordiais convites para jantar ou receber medalhas do m´rito militar.

Outra glória, para insistirmos na palavra glória e sermos coerentes com a história – o que é outra rima

(25VIII-1964)

Maomé e a montanha

Poderia iniciar esta crônica dizendo que afrontei o general Costa e Silva na última terça-feira. Seria inverdade. Fui ao seu gabinete ns qualidade de acusado de um crime contra a segurança do Estado, Para isso, o general usou de todo o peso de seu atual cargo: fez a montanha ir a Maomé, em vez de Maomé ir à montanha. Há tempos, um antecessor do sr. Costa e Silva andou processando jornalistas. Mas fazia questão de ir à montanha, ou seja, submetia-se aos cartórios, às salas de audiência, às instalações quase sórdidas da nossa Justiça.

Mas o sr. Costa e Silva é um homem atribulado. Além das naturais funções de seu cargo [de ministro da Guerra, hoje do Exército], é um homem assoberbado com jantares e recepções. Usou, por conseguinte, de um privilégio legal. Juiz, escrivão, escrevente, advogados, todos tiveram de enfrentar o pátio ensolarado do Ministério da Guerra e bater à porta de seu venerável gabinete.

O general é um homem baixo, mais baixo do que parece nas fotografias, mas quando começa a falar adquire uma certa simpatia, um calor humano que o torna respeitável e quase bonito. Cruzou seu gabinete para vir falar com este cronista. Estendeu-me a mão, apresentando-se:

– General  Costa e Silva!

Respondi no mesmo tom:

– Jornalista Cony!

O ministro recuou um pouco, fez um gesto com a mão em cima da própria cabeça, para exprimir altura. E disse:

– Imaginava-o mais alto!

Gostei do pronome corretamente empregado e deixei que o ministro se servisse de minha insignificante altura. Mas o juiz tomou as providências preliminares e convidou-nos, a gregos e troianos, a inocentes e culpados à mesa ministerial. O general fez um gesto em direção a seu habitual assento, mas um assessor o advertiu: o lugar de honra seria do juiz. O general então sentou-se ao meu lado, o meu advogado, ministro Nelson Hungria, de outro. Os demais, menos votados, espalharam-se pelo resto da mesa e do gabinete.

O oficial de justiça fez questão de abrir as portas da ministerial alcova. É prática salutar e indicativa de que a Justiça não se faz a portas fechadas. O sr. Costa e Silva ajudou oficial de justiça a abrir os seus batentes e o enorme ventre do saguão de mármore, frio e vazio, foi testemunha da audiência.

Lido o libelo pelo juiz, o general identificou-se como Arthur Costa e Silva, brasileiro, ministro da Guerra, residente na rua General Canabarro, se não me engano, 471, ou número parecido. A uma pergunta do magistrado, declarou que não era meu amigo nem meu inimigo. Nada me foi perguntado, mas a reciproca seria verdadeira.

Enfim, a audiência prosseguiu como soem prosseguir as audiências deste tipo. Nada do que o general disse no processo causou-me estranheza. Exceto, talvez, o fato de que meus artigos são transcritos em diversos jornais do País. Vou pedir, mais tarde, quando passar esta onda, que o general ministro da Guerra me dê o nome e o endereço desses jornais. Vivo disso e tenho de receber a vil pecúnia pelo meu trabalho. É com esta vil pecúnia que pago o leite e o colégio das minhas filhas,

(10-IX-1964)

Nota final de Cony

NOTA: No dia em que saiu publicada esta crônica, enderecei ao jornalista Antônio Callado a seguinte carta:

Ilmo. Sr. Dr. ANTÔNIO CALLADO

  1. Redator-chefe do Correio da Manhã

Conhecedor de uma situação embaraçosa para o meu chefe e amigo, venho, por meio desta, pedir demissão do cargo de redator que ocupo no Correio da Manhã. Esta é a quarta vez que peço demissão do jornal – sou um reincidente incurável. Das vezes anteriores o fiz por motivos pessoais. Desta vez, porém, o falo para facilitar a solução de uma crise em que, honestamente, não me considero envolvido.

A crônica de hoje (Ato Institucional II, uma paródia com o ato de exceção do governo militar), em meu entender, em nada poderia provocar ou influir entre uma crise interna entre a administração e a redação. Mas a crise houve – e não quero que ela se prolongue à custa de um mal estar em que, involuntariamente, coloquei um amigo que admiro e respeito.

O fato de, no momento, estar sendo processado por uma autoridade, com julgamento marcado para março/abril, não é motivo para poupar-me, sacrificando um amigo. Sei me defender sozinho – e o venho fazendo até aqui.

Fique certo, Callado, de minha estima e receba o meu abraço.

(a) CARLOS HEITOR CONY

Entregando meu pedido de demissão à gerência do “Correio da Manhã”, o jornalista Antônio Callado apresentou seu próprio pedido de demissão, deixando também de fazer parte daquele jornal.


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