JP: 31 anos

(Texto publicado na edição 661 do Jornal Pessoal, da 1ª quinzena de setembro de 2018.)

Pode-se demonstrar que a independência é possível e que um verdadeiro jornalista radical pode sobreviver na nossa sociedade? No prefácio que escreveu para um dos livros (Polêmicas e profecias – 1967-1970) da série, em seis volumes, da História não-conformista do nosso tempo, I. F. Stone respondeu afirmativamente, com sua própria obra, às duas questões. Transformo-as em indagação, quase meio século depois, ao buscar a razão de ser e de continuar deste jornal, 31 anos após o início da sua jornada, completados nesta edição.

Os seis volumes (nenhum deles traduzido para o português) contêm centenas de artigos de Stone, escritos entre 1939, ao início da Segunda Guerra Mundial, e 1970, na escalada da guerra do Vietnam, no governo Nixon. No ano seguinte, ele encerrou a carreira de 19 anos do I. F. Stone’s Weekly, a newsletter que escrevia sozinho, na qual saiu a maioria dos seus textos.

Os artigos esclarecem: o tom não-conformista nada tem a ver com sectarismo ou anarquismo. Ao relatar a história no seu cotidiano, o jornalista não se conformou com as explicações e versões apresentadas na sua investigação dos fatos. Exigiu mais, checou tudo, não se deteve diante dos riscos de estar sozinho na análise que realizou. Lidos em conjunto, os textos têm uma unidade tal que permitem uma compreensão profunda desses 30 anos.

A coletânea não só mostra que ele acertou no atacado como desnuda outro aspecto da sua produção: os acadêmicos encastelados nas universidades o desdenharam ou ignoraram, mesmo quando usavam suas informações e abordagens – sem citar a fonte, é claro.

Jornalistas assim não-conformistas, hoje esquecidos, como ele ou K. S. Karol e Wilfred Burchet, eram minha referência quando comecei a minha carreira, 52 anos atrás, em A Província do Pará. Stone foi a inspiração para o Jornal Pessoal, tanto o da primeira versão, de 1972, quanto o atual, que chega a essa idade inacreditável – ao menos para mim. Eles e mais alguns poucos continuam a ser meus companheiros de viagem, meus modelos e minhas metas em jornalismo. Invoco-os para assinalar a data, lamentando as perdas pelo caminho. Ficou mais difícil continuar este jornal e menos provável comemorar um novo aniversário. Mas, ao menos por ora, prosseguimos – se assim quiser quem manda: o leitor.


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