Um país órfão

O Brasil estaria em condições de abrigar uma eleição estapafúrdia como a de ontem, sem escoriações generalizadas, se não estivesse quebrado. Mas com um brutal déficit fiscal, um desempenho econômico medíocre, inferior ao crescimento da sua população, com um governo que gasta muito mais do que arrecada e com uma elite dirigente corrupta e egoísta, vai sentir dramaticamente a ausência de um grande líder na disputa do 2º turno. Estadista, nem ontem havia um que pudesse enfrentar a onda que quebra sobre a cabeça do cidadão brasileiro.

Na voragem de destruir o adversário mais próximo ou que estava à frente da corrida, os candidatos perderam a visão do país pelo qual se digladiaram com uma violência recorde e uma polarização extrema. Um foi superando o outro em demagogia, sedução pelo eleitor, busca pelo ponto médio da curva e outras extrapolações que levaram os discursos ao paroxismo da irrealidade.

No poder, qualquer um deles, se cumprir o que anunciou, não dará ao país as respostas que o drama atual (em processo de transformação para tragédia) exige. Se renegar o discurso, prolongará o esgotamento do modelo político brasileiro até a completa exaustão, transferindo o colapso que vem se anunciando.

A trajetória perigosa foi confirmada antes de computados os últimos votos. Jair Bolsonaro, frustrado por não ter vencido no 1º turno, que arremataria a onda avassaladora que se formou com base no seu nome, desfecho final de uma irrupção de apoios, cometeu um ato falho ao atribuir o resultado a alguma irregularidade no processo eleitoral. Deixou evidente a sua vontade imperial e imperiosa, um elemento de tensão num regime democrático.

Já Fernando Haddad está há mais de três horas conversando com Lula no cárcere da Polícia Federal em Curitiba. O que acertaram vai influir decisivamente não só sobre a eventual (e, por enquanto, improvável) reversão da derrota que sofreu como sobre o que Haddad poderá fazer se conseguir a façanha da vitória.

O PT continua a ser o partido mais forte e organizado do Brasil, mas seu fisiologismo e erros reduziram o universo do seu apoio. O Partido dos Trabalhadores continua a atribuir a uma conspiração das elites a perda de prestígio que sofreu, quando, na verdade, seu desgaste resulta da sua associação a corrupção e procedimentos antiéticos. Iludindo-se a si mesmo ou acreditando no seu poder de manipulação, o PT se recusa a corrigir rumos. Parece acreditar no poder miraculoso do seu grande líder.

Por isso, se recusa a ouvir recados da sociedade. Não é por conspiração iníqua que Janaína Paschoal, execrada símbolo da ação pelo impeachment de Dilma Rousseff, recebeu pouco mais de dois milhões de votos. Com essa votação, se tornou recordista em todos os tempos na disputa por um lugar na Assembleia Legislativa de São Paulo. Superou em quase 200 mil votos o cacife do filho de Jair Bolsonaro, que teve a maior votação para a Câmara Federal, com 1,8 milhão de votos.

O Brasil que voltará à votação no dia 28 foi privado de encontrar um líder político à altura do momento que vive. O mostruário que o sistema político vigente lhe ofereceu não incluía estadistas.


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