Isso é imprensa?

Diário do Pará de hoje publica três fotos – bem abertas, para chocar ainda mais – de três pessoas mortas ontem, em Castanhal. A tarja eletrônica usada para cobrir o rosto dos cadáveres é mera formalidade. As imagens pegam em detalhe as perfurações nos corpos das vítimas principalmente na cabeça, feitas por bala. Há sangue espalhado sobre e em torno dos corpos. Os assassinatos seguiram um rito cada vez mais constante: grupos numeroso de homens encapuzados invadem residências, matam os seus alvos dentro da casa ou os levam para fora e os executam, sempre com muitos tiros, para ficar bem claro ser um ajuste de contas ou uma execução por encomenda.

Não adianta mais criticar a diretriz editorial do jornal do senador Jader Barbalho e sua família, nem pedir pela consciência de quem transformou as páginas do caderno policial do Diário numa extensão das ruas da periferia da região metropolitana de Belém, que todos os dias amanhecem com cadáveres expostos. A ordem é causar impacto, fazer sensacionalismo, chocar – e vender jornal, a qualquer preço “porque é disso que o povo gosta”). Os responsáveis pelo pior noticiário policial do Brasil – e talvez do mundo – ignoram o que é respeito humano, comiseração, caridade ou qualquer sentimento que se coloque no caminho do faturamento.

Talvez só brequem essa volúpia quando as famílias – pobres e humildes, em geral – desses mortos cobrarem a devida indenização por esse abuso. Infelizmente, ninguém ainda se apresentou para assumir essa tarefa elementar: mostrar aos donos do Diário e seus jornalistas de confiança que o bandido e o cadáver são seres humanos e nem sempre suas famílias os levaram ao crime.

Diário poderia fazer esse tipo de cobertura sensacionalista por decisão editorial, por achar que só assim contribui para combater os bandidos que matam sem parar, numa progressão que instaurou a selvageria, a barbárie, o assassinato por motivo fútil, torpe, ou por motivo algum. Mas por que só escrachar a pessoa comum, desprotegida, excluída da “boa sociedade” (sem falar na pobreza dos textos publicados e na leviandade na sua apuração)? Por que os ricos, poderosos, bonitos e famosos jamais aparecem nesse noticiário? Por que esse facciosismo ignóbil e essa insaciável volúpia pela exploração comercial da tragédia cotidiana dos cidadãos simples – mesmo que, eventualmente, bandidos merecedores de todo rigor na sua punição conforme a lei penal?

Mais do que pública e notória, já é clamorosa (e brada aos congestionados céus) a parcialidade da imprensa paraense, no caso dos assuntos policiais (na verdade, profundamente sociais), com destaque para o jornal de Helder Barbalho, o jovem cidadão que espera se tornar governador do Estado, ao lado do pai, senador, da mãe, deputada federal, do primo, deputado federal, da madrasta, deputada federal, a política em família, o Pará como extensão do seu patrimônio pessoal, que se expande, quando nada, por essa exploração da miséria, dos desacertos, das tragédias alheias.

Uma tragédia se abateu sobre a família Maiorana quando um dos herdeiros do império de comunicação construído por Romulo Maiorana, pai, atropelou e matou duas pessoas de 19 anos, feriu outra na calçada e colidiu com carros estacionados na avenida porque subiu ao seu potente carro embriagado e dirigiu pela madrugada em alta velocidade. O grave acidente aconteceu seis dias depois que O Liberal publicou matéria sobre as mortes no trânsito causadas por pessoas irresponsáveis, imaturas ou mal educadas, que agem de forma temerária e, mesmo sem ter essa intenção deliberada, matam por efeito de uma combinação de fatores ruins, assumindo o dolo eventual.

A lição que o jornal quis dar com a notícia, ele a omitiu e escondeu ao excluir o fato da comunicação aos seus leitores, conforme era do seu dever, ainda que fosse como imposição de negócio. A autocensura, esta figura odiosa, que se choca com a liberdade de imprensa e ameaça a verdadeira democracia, se estendeu ao concorrente, o Diário do Pará, que também silenciou por completo, passada mais de uma semana do acontecimento.

Para a imprensa paraense, há um peso e duas medidas. Nela, a desigualdade é maior do que na realidade que ela deveria retratar. Isso é imprensa?


Print   Email