Quem blefa?

O acidente de fevereiro em Barcarena aconteceu de fato. Cursos d’água em torno da fábrica de alumina (e de alumínio também) foram contaminados por alguns produtos químicos. A Hydro Alunorte teve que recorrer a uma drenagem abandonada – e que não era monitorada – para escoar água excessiva da chuva que caiu no dia 17.

Provavelmente material contaminante escapou por essa tubulação. Mas não houve vazamento ou transbordamento do imenso depósito de rejeito de alumina, na forma de lama vermelha (com essa coloração pela ação de produtos químicos utilizados na lavagem do minério, especialmente a soda cáustica).

A Hydro Alunorte foi responsabilizada, admitiu a sua culpa e pagou a multa – duas aliás, uma delas referente ao acidente, muito mais grave, de 2009. Resolvido o problema? A empresa diz que não. Continuou limitada a 50% da sua capacidade de produção, restrição adotada para não criar mais rejeito. Mas, evidentemente, de duração limitada.

Para produzir pouco mais de 6 milhões de toneladas de alumina, a fábrica precisa de 12 toneladas de minério de bauxita, transportada por mineroduto da sua mina, em Paragominas, a 300 quilômetros de distância, que também parou (também deverá parar a Albrás, a metalúrgica de alumínio, a 8ª maior do mundo, de propriedade da Hydro). Logo, 6 milhões vão todos os anos para o DRS (Depósito de Resíduo Sólido) desde que a fábrica se tornou a maior do mundo.

Esse depósito já chegou ao seu limite. Quem for vê-lo, se impressionará por seu volume e altura, equivalente a um prédio de seis andares. A Alunorte terá que passar para o 2º DRS, no qual ela informa ter usado a melhor tecnologia do mundo, tanto para reduzir o volume como para lhe dar segurança. Ou então tem que parar completamente – ou de vez, se não houve alternativa.

Por algum motivo, as autoridades procuradas pela empresa não lhe deram uma solução. Manter a atual situação é impossível. Ou a fábrica é liberada, sob condições (já estabelecidas no Termo de Ajuste de Conduta), ou fecha. Mas se o governo quer a segunda hipótese, haveria motivos muito mais sérios para apresentar do que a falta de determinação em relação ao acidente de fevereiro.

Uma rejeição programática ao modelo de projetos de impacto concebidos durante o regime militar seria motivo para apresentar no momento em que, já faz tanto tempo, Barcarena passou a concentrar empreendimentos econômicos de grande porte, sem um planejamento centralizado e rigoroso, numa região suscetível a danos em virtude dessa difícil convivência.

Por incompetência, má fé ou desonestidade, o governo empurrou com a barriga uma atitude consequente e eficaz. Parece que a multinacional norueguesa, que tem seu próprio governo como acionista majoritário, pagou para ver. O governo, agora, que apresente suas cartas para fazer o jogo andar na busca pela verdade e a resolução do problema. Sem o que, ficará claro que blefa.


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