As fantasias de Lula

Da prisão especial em que se encontra há quase sete meses, numa das melhores dependências disponíveis na Polícia Federal em Curitiba, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou uma nova versão da “carta aos brasileiros” de 2002, com a qual venceu, finalmente, a quarta eleição que disputou a partir de 2009.

É interessante comparar os dois documentos, um que iniciou uma administração preocupada em conciliar a expansão do capitalismo brasileiro (especializado em commodities de exportação, como a soja, o minério de ferro e a carne) com a incorporação de novos consumidores, retirados da faixa da pobreza para a de acesso a produtos essenciais do mercado, com crédito farto e endividamento recorde.

Agora, Lula quer refazer essa trajetória. Cria uma fantasia de desenvolvimento social, que existiu, de fato, em harmonia com a expansão das grandes fortunas, nos seus extremos, subsidiada por crédito favorecido do setor público (que fez de Eike Batista o 8º homem mais rico do planeta, e do ranking o despejou para miseráveis milhões de dólares quando a bolha de dissipação de dinheiro estourou).

Essa fantasia é para apagar o marco de uma queda livre – ainda sob a hegemonia petista – das conquistas alcançadas e dos erros repetidos, a partir da primeira administração de Dilma Rousseff, em 2011. E, principalmente, de sua desastrada segunda gestão, que se tornou possível ao custo de 800 milhões de reais da sua campanha, segundo Palocci.

Quando o vice de Dilma, o velho peemdebista Michel Temer, subiu ao poder, por uma manobra política que culminou num processo legal de impeachment, o Brasil já estava em ruínas, certamente agravadas pelo preço que Temer já pagou – e ainda vai pagar – para chegar ao fim da metade do segundo mandato original de Dilma (no maior cargo do país por inacreditáveis seis anos) sem ser afastado  por corrupção ou ser preso. Se Temer agravou o legado de Dilma, ela agravou ainda mais o legado que Lula agora oferece ao povo, ilusoriamente.

Para Lula, só Lula interessa. Grifei os trechos dessa megalomania, que o leva a humilhar o seu ectoplasma e a comprometer o mandato que Fernando Haddad poderia exercer de forma independente e autônoma, com suas próprias ideias, se vier a ser eleito para a presidência da república. O candidato é Lula, cuja candidatura ele afirma que cresceu nas pesquisas (embora ele não figure mais nas opções dos institutos de pesquisa; ou figura?). Haddad, “o maior dos ministros”, é mera figuração.

O Brasil é o quintal dos sonhos e delírios de Lula, um fenomenal político, instintivo ao extremo e ao máximo carismático, cuja relevância é agora histórica, um passado que poderia ser glorioso se ele não o quisesse prolongar à força de manipulações, como as desta carta

A carta de Lula

O Brasil está muito perto de decidir, mais uma vez, pelo voto soberano do povo, entre dois projetos de país: o que promove o desenvolvimento com inclusão social e aquele em que a visão de desenvolvimento econômico é sempre para tornar os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. O primeiro projeto foi aprovado pela maioria nas quatro últimas eleições presidenciais. O segundo foi imposto por um golpe parlamentar e midiático travestido de impeachment.

Esta é a verdadeira disputa nas eleições de 7 de outubro. Foi por essa razão que meu nome cresceu nas pesquisas, pois o povo compreendeu que o modelo imposto pelo golpe está errado e precisa mudar. Cassaram minha candidatura, de forma arbitrária, para impedir a livre expressão popular. Mas é também pela existência de dois projetos em disputa que a candidatura de Fernando Haddad vem crescendo, na medida em que vai sendo identificada com nossas ideias.


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