Uma diva se foi

Comecei a formar meu gosto musical no momento em que a música popular transitava no Brasil do bolero para o samba-canção, entre os anos 1950/60. Uma das cantoras que mais representou essa época foi Ângela Maria, que morreu no sábado, 29, em São Paulo, aos 89 anos. O naipe de mulheres com grande potência vocal rivalizava com o elenco americano, sempre muito bem fornido. A música brasileira era m esmo superior à made in USA, que vivia seu apogeu estendido, sem patriotismo. Ângela Maria ia ao fundo da garganta, sustentava o fôlego sem perder a qualidade da voz e trazia do pulmão uma frescura melodiosa que encantava, com a naturalidade que só cantoras de muitos recursos possuem.

Por suas tantas qualidades vocais, sobreviveu à passagem do tempo e à alternância das modas. Deixou de ser a princesa  – e, depois , a rainha – do rádio (nas inflamadas disputas com Marlene ou Emilinha) porque o rádio também decaiu, perdendo os auditórios enormes e lotados, e os veículos de divulgação, o mais importante deles sendo a Revista do Rádio. Ângela saiu para a penumbra e as coxias. Mas continuou a ser uma fonte de prazer ouvi-la quando, sob a bossa nova, que tem suas origens no mais caracteristicamente gênero musical brasileiro, o samba-canção (da periferia e do centro urbano, dos pobre s e dos ricos), já não atendia o nosso gosto um pouco mais apurado o mero o tonitruar das grandes vozes do passado (e os novos compositores também cantavam, colocando com esmero suas vozes modestas).

Faltou a Ângela Maria, na maioria da mais de centena dos seus discos gravados, um repertório modulado para a sua voz. O melhor de todos os registros veio em 1996 (Amigos), ela já aos 67 anos, com uma criteriosa e feliz seleção de músicas que cantou em duetos com artistas de várias gerações depois dela, como os compositores Caetano Veloso, Chico Buarque e Djavan, e cantoras ao estilo dela, como Alcione (sua principal herdeira) e Nana Caymmi. Um disco lindo, maravilhoso. Para ouvir mais uma vez, em homenagem à grande Abelim Maria da Cunha, das melhores criações dos subúrbios cariocas para este Brasil em violenta decadência musical.


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