Bertolucci se vai

Quase todas as semanas, entre o final da tarde e o início da noite, eu saía da redação do Diário de S. Paulo (e Diário da Noite) pela rua 7 de Abril, pegava a avenida Ipiranga, parava na decantada esquina com a São joão para tomar um café, voltava à Ipiranga (que, no cruzamento com a São Luís, delimita o mais belo recanto daquelas paragens), dobrava na Rio Branco e me instalava confortavelmente no Cine Bretagne, quase sempre com baixa ocupação, para ver maravilhosos filmes europeus, principalmente os da Nouvelle Vague e italianos, “filmes de arte”, como se dizia. Hoje banidos do “mercado”.

Foi o período mais fecundo da minha trajetória de cinemaníaco, entre os 15 e os 22 anos, iniciada em Belém, em 1966, quando criei uma página dupla sobre cinema, em A Província do Pará, à imagem e inspiração do espaço enorme dedicado ao cinema pelo Correio da Manhã, onde eu trabalhara, no Rio de Janeiro, sob a direção de Antônio Moniz Vianna. Tínhamos até nosso quadro de cotações, no qual os jovens críticos (ignorados pela crítica tradicional) avaliavam os filmes em cartaz.

Devo alguns elementos da minha formação cultural e vários dos maiores impactos intelectuais a essa programação do Bretagne. Em 1970, um dos maiores foi O Conformista, do italiano (nascido na bela e sofisticada Parma, residência do amigo jornalista Maurizio Chierici) Bernardo Bertolucci. Como acontecia muito, caminhei alguns quilômetros pelo centro antigo da capital paulista, atualmente um desafio à vida, até a minha casa, na Vila Buarque, ruminando o impacto, profundamente atingido pelo filme. Tão original que foi indicado para o Oscar de melhor roteiro, mas não levou. Não era exatamente o que Hollywood apreciava.

A capital americana do cinema só se rendeu quando, em 1998, já com pleno domínio da técnica e amadurecido, Bertolucci fez o lindo O Último Imperador e levou nove estatuetas. Estava consagrado e continuava um grande diretor, mas mudara de linguagem, a partir do inesquecível e perturbador (inclusive eticamente, o que hoje o levaria ao martírio do politicamente correto) o escatológico O Último Tango em Paris, com Marlon Brando abusando de Maria Schel, no fulgor ainda inocente dos  19 anos. Eu já me distanciava do cinema – e vice-versa – como da cultura dominante.

Devo esse registro como retribuição a Bernardo Bertolucci, que morreu hoje, aos 77 anos. O Cine Bretagne não existe mais. O centro de São Paulo se deteriorou. E eu raramente vou ao cinema.


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