O duro ofício do jornalismo

Meu primeiro texto publicado na imprensa foi sobre a Segunda Guerra Mundial, que saiu em 6 de maio de 1966 em A Província do Pará. Não era um texto anódino: eu denunciava o fato de que, 21 anos após o fim da “grande guerra” (pela ilusão humana de que sua selvageria poria fim a esse tipo de acontecimento), o homem ainda procurava a paz – e ela não vinha.

Passados mais de 52 anos de atividade jornalística ininterrupta, esta é ainda a minha característica: a busca incessante pela verdade através da apuração dos fatos existentes em cada assunto que abordo, complementada pelo compromisso de tornar público todas as informações relevantes para o interesse – e o bem – público. Principalmente aquelas que tratam do abuso de poder, do desvio do dinheiro público, da manipulação da sociedade.

Nessa trajetória já fui hostilizado, ameaçado de morte, agredido fisicamente e objeto de 34 ações judiciais. Nenhum dos autores dessas demandas tentou exercer o direito de retrucar as matérias que os incomodaram antes de propor a ação na justiça. Todos desfrutavam de algum tipo de poder, como três dos sete irmãos Maiorana (minoria, portanto, na família), o empreiteiro Cecílio do Rego Almeida, o desembargador João Alberto Paiva ou o madeireiro Wandeir Costa.

Em minhas publicações, sempre respeitei como sagrado o direito de resposta. Reproduzi na íntegra todas as cartas que me foram enviadas, mesmo se longas ou ofensivas. Quando minha resposta foi contraditada, mantive a reprodução das réplicas e as sucessivas manifestações. Daí longas e duras polêmicas registradas nas publicações que editei.

Dei aos leitores a oportunidade – rara na imprensa – de acesso às refutações, críticas e ataques (por vezes caluniosos, infamantes e difamantes) que me foram feitos.

Mas não desisti, como sempre me comportei, desde a primeira vez que cheguei a uma redação para trabalhar, aos 16 anos. Hoje, caminhando para os 70, minha defesa é a minha história, aberta a todos que se interessarem por ela, nas minhas publicações e fora delas (no momento, o Google registra mais de 5,2 milhões de referências ao meu nome).

Presumo ter o direito a cobrar respeito de todos que me aprovam ou desaprovam. Nunca fui acusado de corrupto. Nunca exerci qualquer forma de poder que não derivasse exclusivamente do uso da inteligência. Transmiti à sociedade tudo que acumulei de informações de real interesse público.

Expus-me ao risco do erro por divulgar questões de vanguarda, temas ainda emergentes, fatos ainda quentes, sem esperar pela confirmação alheia e a sanção oficial. Invariavelmente, remei contra a corrente e desagradei os poderosos, quase todos que estiveram no âmbito da minha ação.

Na velhice, essa escolha cobra da minha saúde os efeitos dos desgastes que tal postura acarreta. Doenças e achaques (como se dizia antigamente) têm se manifestado nos últimos anos, em escala crescente. Não só pela idade, mas pelos exageros no passado (sobretudo no fechamento de edições jornalísticas, em noites altas, sob o efeito de muito café e excessiva adrenalina) e pela continuidade de alguns dos novos exageros de hoje.

Continuo na mesma linha de frente dos já longínquos tempos da juventude. Permaneço exposto à fúria dos poderosos mais recentemente neste blog e, há 31 anos, no Jornal Pessoal, numa longevidade totalmente desaconselhável para o período da velhice.

Ainda resisto a ensarilhar a arma mais nobre do jornalismo: o compromisso fiel com a busca da verdade por meio dos fatos. Nesta conjuntura, sobretudo, esse compromisso acarreta dissabores constantes.

Sem dar a eles a importância nefasta que têm, mantenho este blog, há quase quatro anos e meio, sem sujeita-lo à moderação do autor. O que mandam para este espaço, nele sai. Como as ofensas e agressões de pessoas escondidas sob anonimato ou daquelas que, assinando suas postagens, transformaram a controvérsia e a divergência num instrumento a serviço do ataque pessoal, da busca pela intimidação, da tentativa de causar dano e levar ao descrédito.

Todos os personagens desse tipo no passado já se foram. Um novo surgiu. É o ex-amigo Elias Granhem Tavares (como alguns dos outros, inclusive os falsos amigos, que se valeram da máscara para deixar transbordar seus instintos amestrados para o contato direto).

Nós nos conhecemos pessoalmente porque o procurei, anos atrás. Todos os nossos contatos aconteceram pela minha iniciativa. A numerosa correspondência pela internet resultaram de iniciativas mútuas. Eu lhe mandei mensagem e lhe telefonei pela última vez para lamentar o encerramento das atividades da sua loja (local dos nossos encontros, que nunca chegaram às nossas residências) e manifestar minha solidariedade e preocupação pela sua saúde.

Até esse momento, além de respeito e estímulo, suas eventuais restrições e críticas eram apresentadas com cordialidade e sob uma moldura de respeito, confirmada pela sua família. Seguiu-se um hiato, interrompido pelas suas mensagens, não mais com as marcas anteriores.

Agora, às mesmas observações anteriores, que não o impediam de me atribuir saldo positivo, se seguiu uma obsessiva agressividade, o desejo de ofender e desqualificar. Surpreso e chocado pelo novo tom, decidi não responder mais. Quebro pela última vez essa decisão para fazer estes esclarecimentos.

Elias diz que sou um jornalista decadente. Eu não era até nosso último diálogo. Até irromper essa fase, tornando-se feroz e infame, ele era um dos que mais apoiava o Jornal Pessoal, no qual reproduzi suas cartas, algumas das quais, por seu conteúdo, transformei em artigos assinados, e outras usadas como base de informações, resguardado sempre o sigilo da fonte, quando solicitada. Hoje é o que mais me destrata.

Decidi, também pela vez derradeira, responder a algumas das acusações que ele faz, no que dá para aproveitar dos seus arrazoados febris e, às vezes, insanos. Segue-se a mensagem dele, com as minhas observações em negrito, para que o leitor forme o seu juízo a respeito. Como o meu está feito, a partir de agora, deixo livre o espaço para o Elias tentar me destruir.

O ATAQUE

A conduta do Lúcio também demonstra as limitações dele, como pessoa e como profissional. É um jornalista que já fez muita coisa boa no passado. Hoje, é um profissional decadente.

Como ser humano, ele se tornou um indivíduo amargo e rancoroso. Ele alimenta ódio pessoal por décadas e nunca perde a oportunidade de destilar esse ódio, em afirmações nem sempre verdadeiras sobre as pessoas a quem ele odeia.

Um exemplo disso é o ódio que ele devota ao Edmílson Rodrigues. Durante anos ele fez críticas sistemáticas a todos os atos do Edmílson na Prefeitura de Belém. É como se, em 8 anos de mandato, Edmílson nada tivesse feito de bom, de elogiável. O cara ganhou vários prêmios, no Brasil e no exterior, por programas de trabalho desenvolvidos em Belém. Mas, a julgar pelas páginas do JP, Edmílson foi um fracasso como prefeito. Em 8 anos, nada fez de aproveitável.

Por que Elias não me disse isso antes, durante a gestão de Edmilson Rodrigues na prefeitura de Belém ou logo depois? Por que só agora?

Acompanhei o então petista quando ele assumiu o cargo, indo ao palácio Antônio Lemos. Ele me recebeu com gentileza, ainda no clima do debate na TV RBA, quando coloquei na parede o adversário dele, Ramiro Bentes, candidato de Hélio Gueiros, contribuindo de alguma forma para a vitória de Edmilson (na saída da emissora fui saudado pelos militantes petistas como se fosse um herói).

Publiquei todas as respostas que a assessoria de comunicação da PMB enviou, na íntegra. Sempre estive aberto ao contraditório. Se a prefeitura não quis continuar a responder às minhas críticas, foi por não querer ou não ter argumentos. Espaço é que não lhe faltou.

Millôr Fernandes já disse que jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados. Os petistas ficavam satisfeitos quando eu criticava seus adversários e inimigos que estavam no poder. Quando lá chegaram, passaram a me repudiar e me tacar. Como sempre fizeram os poderosos, me classificando de pessimista, crítico sistemático, desinformado e outras aleivosias, como também se dizia antigamente.

Há aproximadamente 12 anos, Lúcio teve um encontro pessoal com o Edmílson (eu até ajudei a promover esse encontro). Minha expectativa era de que eles colocassem em pratos limpos os desentendimentos que existiam entre eles e, dali por diante, fosse estabelecido um relacionamento menos agressivo.

Nada! Isso porque o Lúcio não muda. Está muito velho pra mudar. É só ver o que ele republica no blog, notadamente quando eu passei a mostrar as burradas que ele comete, nas análises que ele faz. Há alguns dias, ele desencavou do baú do JP um episódio em que, num ambiente público, ele estendeu a mão ao Edmílson, e este recusou o cumprimento.

Do modo como Lúcio narrou o episódio, parece até que o Edmílson é algum maluco, que, do nada, revolve refugar o cumprimento de um jornalista.

Nada mais longe da verdade. À época, Edmílson estava extremamente irritado com Lúcio, por este ter tornado públicas algumas declarações que o então prefeito lhe fizera privadamente.

É sempre possível dizer que quem errou foi Edmílson. Lúcio é jornalista, e, dispondo de uma informação “quente”, tende a usá-la jornalisticamente (segundo ele entenda o que implica esse termo). Os agentes públicos é que, ao lidar com jornalistas, devem tomar cuidado ao expressar avaliações e conclusões pessoais.

Em contrapartida, Edmílson poderá argumentar (embora, ao que eu saiba, nunca tenha feito isso), que Lúcio Flávio Pinto não era recebido no Palácio Antônio Lemos somente como jornalista. Ele era recebido, sobretudo, como amigo. Lúcio entrava no gabinete quando queria, sentava-se à mesa do Aldenor Júnior (então chefe de gabinete do prefeito), e parlapatava horas a fio sobre o que o Edmílson deveria ou não fazer, como prefeito. Sentados em cadeiras “interlocutores”, como se eles e não o Lúcio fossem os visitantes, Edmílson e Júnior ouviam pacientemente…

Foi numa dessas ocasiões que Edmílson disse algumas coisas que foram do pronto publicadas pelo Lúcio, criando uma tremenda saia justa para o então prefeito.

Edmílson ficou irritadíssimo, mas não disse nada ao Lúcio. Reclamou do ocorrido reservadamente. E, reservadamente, lhe foi recomendado ter mais cuidado nos contatos com jornalistas (embora outros lembrassem a condição de “amigo” do Lúcio Flávio, etc., etc.).

Foi então que ficou definido que, dali por diante, o Lúcio Flávio Pinto seria tratado como qualquer outro jornalista. Se ele quisesse ter algum contato com o prefeito, ele deveria, como qualquer jornalista, seguir os procedimentos de praxe. E os contatos com o Lúcio Flávio teriam, sempre, caráter formal (da equipe que atuava no Antônio Lemos, eu fui o único que continuou mantendo um relacionamento informal com o Lúcio). Evidentemente que o Lúcio ficou irritado, e revidou, fazendo ataques sistemáticos ao Edmílson, no JP.

Esse o contexto em que ocorreu o episódio do aperto de mão recusado pelo Edmílson. Provavelmente ele não quis dar curso à hipocrisia de cumprimentar cordialmente quem havia se comportado de maneira deliberadamente traiçoeira para com ele (Lúcio não tinha como ignorar que, ao publicar as declarações que ouvira de Edmílson, isso acarretaria — como de fato acarretou — consequências extremamente danosas para o então prefeito).

Foi por isso que Edmílson recusou o aperto de mão do Lúcio. No que agiu muito bem, aliás!

Elias se revela mentiroso ou covarde – ou as duas coisas.

Edmilson recusou o civilizado apertar de mãos quando ainda era prefeito de Belém. Até esse momento, nunca ele manifestara diretamente a mim o seu desagrado com o que eu escrevia nem publicamente, através de nota oficial. Foi acumulando ódio (o que nunca fiz na vida, tanto que me reconciliei com meus desafetos depois que eles perderam poder ou o deixaram, como aconteceu com Jarbas Passarinho e Aloysio Chaves, dentre outros) por ser autoritário, intolerante, refratário à crítica e vaidoso (daí o ódio por eu não aceitar como arte os rabiscos primários que ele fazia presumindo-os de valor artístico).

Edmilson nunca foi meu amigo nem jamais me fez confidências, por isso mesmo não poderia revelá-las, rompendo o suposto acordo de confidencialidade, o que jamais fiz em toda minha vida (por isso, nunca perdi uma boa fonte). Mantínhamos relações amigáveis, sem qualquer intimidade, enquanto o que eu fazia o agradava e lhe proporcionava rendimentos políticos – enquanto não foi poder.

Depois, passou a me detestar, tanto que foi um dos dois únicos políticos que me levou às barras da justiça. Outro foi o deputado federal Éder Mauro. Ambos foram derrotados.

Nunca reivindiquei privilégios, mesmo dos amigos que chegaram ao poder, como Jader Barbalho e Hélio Gueiros. Eles me abriram as portas dos palácios que ocuparam, mas não porque pedi. Quando passaram a ser criticados, fecharam esse acesso. Nem por isso me privaram de informações sobre o que faziam.

Meu maior patrimônio são as minhas fontes, dentre elas amigos que, mesmo no PT, me recebiam (sigilosamente, é claro, a partir do momento em que passei a ser maldito), conversando e me informando.

Quanto a Aldenor Júnior, citado especificamente, meus poucos contatos com ele deixaram de ser em palácio, tornando-se ocasionais, na rua e em outros ambientes, eventualmente, em função do fato de ter sido meu aluno – e muito bom aluno, além de ser uma pessoa que sempre respeitei. Mas deixou de ser fonte de informações sobre a prefeitura, por fidelidade ao chefe.

Já o encontro pessoal, para o qual Elias influiu, foi mantido quando Edmilson já não era prefeito. E foi muito cordial. O ex-prefeito não fez qualquer crítica nem manifestou desagrado. E eu, muito mais ouvindo, quando me manifestei, falei francamente com ele, como é do meu estilo. Ao final, nos cumprimentamos. E nunca mais voltamos a nos encontrar. A versão de Elias é novidade – e é mentirosa.

Não me recordo de escrever neste blog sobre Edmilson, a não ser a respeito da sua reeleição como o deputado federal mais votado da bancada do Pará, mas com uma votação muito inferior ao do campeão na eleição passada, o delegado Éder Mauro, que, de primeiro, baixou para nono, com metade dos votos obtidos quatro anos antes – o que também registrei. Não me surpreendeu que os dois me tenham processado na justiça.

Mas me surpreendeu a mutação patológica de Elias Granhem Tavares. Já que ele me considera um jornalista decadente, sem credibilidade e sem qualidade (tudo isso perdido quando passei a criticar os petistas mais poderosos do Brasil, revelados como corruptos pela Operação Lava-Jato), por que perde tempo comigo? Eu não perderei mais o meu tempo com ele. Elias é um caso perdido para as questões públicas. E para o mundo da razão.


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